A questão da fome em tempos de pandemia

Enviada em 16/09/2021

No livro “Quarto de despejo”, a autora Carolina Maria de Jesus descreve a rotina de sua família enquanto enfrenta a fome e a miséria. No texto, a protagonista revela sua indignação com a negligência das figuras políticas perante sua situação. Hodiernamente, a obra pode ser representativa para outras personagens da vida real ao dar enfoque à problemática da fome nos tempos de pandemia. Desse modo, faz-se mister discorrer sobre essa questão que é decorrente das disparidades socioeconômicas e da omissão estatal.

A princípio, vale ressaltar que a falta de acesso à alimentação está ligada ao fator econômico. Nesse aspecto, a Carta de Direitos Humanos de 1948 dita que todos os seres nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Seguindo esse pensamento, a fome, decorrente da falta de poder aquisitivo de uma parcela da população, foi agravada pela crise econômica provocada pela pandemia do novo Coronavírus, a qual aumentou a taxa de desemprego e parcela populacional em precariedade. Assim, a nutrição adequada se tornou um privilégio dos economicamente favorecidos, cenário que contrapõe os preceitos de igualdade e dignidade humana.

Ademais, o governo negligencia seu papel em prestar assistência nutricional à população. Nesse viés, a Constituição Federal de 1988 preconiza a segurança alimentar como um dever do Estado. No entanto, parte da população marginalizada ainda não tem acesso aos alimentos, devido a alta inflação no custo da alimentação ou pela falta de recursos aos programas assistenciais de cestas básicas. Logo, a negligência estatal corrobora um lamentável panorama de miséria e desnutrição.

Por conseguinte, é fulcral combater à fome em tempos de pandemia. Para isso, urge que o Tribunal de Contas da União libere verba financeira para um novo programa Fome Zero. Tal ação deve contar com a distribuição gratuita e descentralizada de cestas básicas por todo país, a fim de democratizar o acesso à alimentação. Destarte, outras Carolinas poderão retratar outras realidades em suas obras, que não a fome e o desamparo.