A questão da fome em tempos de pandemia

Enviada em 19/09/2021

Na obra ‘‘Utopia’’, de Thomas More, é retratada uma comunidade perfeita, isenta de conflitos socioeconômicos, em que todos possuem os recursos vitais de maneira igualitária. Entretanto, fora do cenário fictício, na contemporaneidade brasileira, tal igualdade não é colocada em prática, uma vez que durante a pandemia do vírus SARS-CoV-2 os níveis de fome foram aumentados nas classes sociais menos favorecidas. Nesse contexto, cabe analisar os fatores que motivam a escassez de alimentos em parte da população, tais como a desigualdade financeira e a inoperância estatal.

Mormente, é fato que as condições econômicas determinam a discrepância de recursos alimentares. Isto posto, conforme o sociólogo Michael Sandel, a mercantilização atual faz com que ricos e pobres tenham vidas cada vez mais separadas e tal lógica de mercado se reproduz na sociedade. Sob esse prisma, infere-se que o acúmulo de capitais penetra em outras instâncias, tais como saúde e alimentação, o que faz com que a qualidade de vida seja influenciada pela economia. Dessa forma, a crise financeira causada pela paralização das atividades econômicas durante a pandemia afeta principalmente as camadas marginalizadas, uma vez que dificulta a aquisição de alimentos. Assim, a desigualdade financeira vigente impede a redução da fome vigente.

Outrossim, torna-se evidente o descaso governamental diante da escassez de alimentos em parte da comunidade. Sob essa análise, conforme o sociólogo Gilberto Dimenstein, apesar de os cidadãos possuírem direitos assegurados na Carta Magna, na prática, isso não acontece, o que cria o falso senso de cidadania. Nesse viés, depreende-se que apesar do compromisso do governo em garantir condições básicas, tais como saúde e alimentação, esses direitos não ocorrem efetivamente, tendo em vista o agravamento da fome no Brasil. Desse modo, a ausência de medidas estatais, tais como melhora na distribuição de alimentos e auxílios aos necessitados dificulta a segurança alimentar e prejudica gravemente as camadas marginalizadas. Dessarte, é indiscutível que a negligência estatal influencia a subnutrição.

Portanto, é imprescindível cessar a fome no Brasil. Para isso, cabe ao MInistério da Economia, responsável pela distribuição de renda, reduzir a desigualdade financeira, mediante a criação de projetos que aumentem o poder de compra dos menos favorecidos, a fim de possibilitar a aquisição alimentar igualitária. Além disso, cabe ao Ministério da Cidadania, responsável por zelar pelos direitos básicos do cidadão, garantir a segurança alimentar, por meio de programas que ofereçam recursos alimentícios às camadas marginalizadas, a fim de impedir a desnutrição vigente. Assim, a fome será ausente da sociedade, assim como na obra ‘‘Utopia’’.