A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 08/02/2022
Nenhuma pessoa no mundo deveria passar fome. Isso vale tanto do ponto de vista prático quanto ético-moral. Em primeiro lugar, a sociedade capitalista produz comida suficiente para alimentar a sua população inteira. Em segundo, o acesso ao alimento constitui o mínimo necessário a uma existência digna. Assim, a ninguém deveria ser negado um direito humano tão básico. Todavia, o que a realidade vem revelando é que isso não apenas impera entre a gente, como tem se agravado nesta pandemia.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), embora o mundo produza alimento suficiente para abastecer a toda sua demanda, uma em cada nove pessoas continua passando fome e uma pessoa, ao menos, morre de fome a cada quatro segundos. Esse dado mostra que o problema da insegurança alimentar não consiste na disponibilidade de alimentos em termos brutos. Dito isso, se, quantitativamente, há alimento bastante para todos os indivíduos, por que ainda existe tanta gente vulnerável a esta condição?
Em breves e diretas palavras, a comida não chega no prato por causa da pobreza. Tendo em vista a mercantilização da vida e que o acesso ao mínimo para se viver abarca um custo financeiro, num mundo marcado pela desigualdade social, quem não se alimenta ou mal se alimenta assim opera porque não dispõe de renda suficiente para comprar a sua comida. Daí, quando a esta dinâmica de comida suficiente versus renda insuficiente ou inexistente se adicona uma pandemia, tudo se complica mais.
Tudo se agrava numa pandemia porque diculdades pré-existentes se amplificam. Somente no Brasil, de dois anos para cá, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave subiu de 10 milhões para 19 milhões. Não à toa o grupo mais atingido pelos efeitos econômicos da atual crise sanitária, precisamente na questão da fome, foram as mulheres chefes de família, pretas e pardas, com baixo nível de escolaridade, que é quem ocupa as camadas mais frágeis desse sistema.
Em resumo, a perpetuação da fome tem sobretudo a ver com a dificuldade de acesso ao alimento. Erradicar tal problema implica um ataque direto à pobreza. Com base nisso, para equacionar diferenças estruturais que impactam a dignidade e a própria existência das vidas, ao lado de permanentes programas governamentais de transferência de renda pelo Estado, como o antigo Bolsa Família e o atual Auxílio Brasil, é importante que se assegurem com regularidade medidas assistenciais que levem em consideração as oscilações de mercado, como a doação de cestas básicas e auxílios extras, por exemplo. Afinal, como afirma o filósofo Immanuel Kant, “cada coisa tem seu valor; o ser humano, porém, tem dignidade”. Resta, pois, a gente decidir se concorda com o pensador ou se vai insisitir nesse modelo indigno de sociedade, independentemente de uma pandemia.