A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 22/09/2021
O artista Candido Portinari, importante representante da estética modernista no Brasil no século XX, convencionou as inquietações sucedidas da miséria do sertão nordestino em sua célebre tela a óleo “Os retirantes”. O quadro retrata uma família anônima em estado de desnutrição fugindo da seca como denúncia ao cenário da indiferença sociopolítica da época. Esse panorama, embora elucidade em uma conjectura artística, apresenta forte semelhança com a realidade contemporânea do País, associada, no entanto, a uma outra ocorrência: a pandemia da COVID-19, que mediante a insuficiência estatal e a sub-marginalização social, ocasionou o desemprego e a miséria.
Convém ressaltar, a príncipio, o descaso governamental tradicionalmente estruturado nas heranças históricas de corrupção e negligência do período Colonial como fator pertinente à problemática. Essa construção cultural, lastimavelmente banalizada pela sociedade, encontrou no contexto pandêmico vigente uma crescente atuação da desigualdade social, refletindo, portanto, as falhas do sistema capitalista em seu ofício junto com o governo imprudente. Nesse ínterim, o desemprego instaurado pela quarentena coletiva, viabilizou a insegurança alimentar de inúmeras famílias, além das outras chagas já existentes. Sob tal perspectiva, a ausência de intervenções, segundo o filósofo John Lock, corrompe o ideal contratualista inerente ao Governo, uma vez que, é dever do Estado garantir que todos os seus cidadões usufrua dos direitos básicos da vida, como saúde, alimentação e bem estar.
Outrossim, é fulcral atenuar com igual importância o segregacionismo marginalizador como advento notório para a manutenção da pobreza. Sendo assim, o escritor português José Saramago, em sua obra literária “Ensaio sobre a cegueira” narra uma epidemia branca que ao se introduzir no organismo causa uma cegueira patológica. A cegueira, por sua vez, é uma metáfora para a falta de visão ao outrem de uma civivilização egoísta, isenta de sentimentos solidários. Analogamente, a ficção se introduz no espaço urbano e rural, que em contraste com as diferenças socioeconômicas de cada grupo revela a mastodôntica concentração de renda para algumas camadas sociais, e posterioemente, o alto desperdício de alimentos que esse mesmo tecido popular ocasiona, haja vista que desconhece o sentimento da fome. Assim, as intempéries supracitadas reforçam a urgência de intervenções.
Infere-se, portanto, que o Estado deve exercer seu papel de forma latente. Para isso, é coerente que o mesmo desenvolva campanhas á longo prazo. Para tanto, a construção de parcerias com empresas e organizações filantrópicas em regiões favelizadas e interiorenas, em que se predomina a marginalização, é essencial. A distribuição de cestas básicas,