A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 27/09/2021
Alimentação e vida são indissociáveis. Essa afirmação é óbvia, mas muitas pessoas ainda são privadas de alimentos no mundo. No Brasil, por exemplo, em meio à pandemia, os noticiários divulgaram que quase 20 milhões de pessoas estavam em situação de fome, enquanto o país segue sendo um dos principais exportadores mundiais de alimentos. Essa realidade mostra que, para vencer a fome, é preciso superar o mecanismo mercadológico no ramo alimentício, pois a lógica de mercado é cruel e submete seres humanos à inaceitável fome.
Para compreender essa questão, é preciso entender que o mercado é o campo em que a propriedade da mercadoria é transferida por meio de operações de compra e venda. Nessa lógica, a transferência só é efetuada quando o comprador pode pagar por ela. Assim, a comida não chega a quem precisa porque, na maioria dos casos, as pessoas não têm dinheiro para comprá-la: pessoas têm dificuldades em conseguir alimentos por serem economicamente excluídas, e não porque não há comida suficiente, como fica evidente no caso brasileiro mencionado.
Diante desse fato, é possível constatar uma inaceitável injustiça. Em primeiro lugar, porque estão sendo desrespeitados instrumentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a nível mundial, e a Constituição Federal de 1988, a nível nacional, pois, neles, a alimentação é estabelecida como um direito. Em segundo lugar, porque a fome é uma violência e um insulto que desumaniza e destrói o corpo. Portanto, o domínio do poder econômico faz com que um direito indispensável à vida seja negado a uma parcela da população.
Em suma, a distribuição de artigos alimentícios com base na lógica do mercado é desumana. Para que vencer a fome deixe de ser um desafio, é preciso que aos alimentos seja atribuída sua função principal, a de alimentar, não a função de ser mero objeto de venda. Enfim, garantir a alimentação significa garantir a vida e isso deve ser uma prioridade, mesmo que as transformações precisem ser profundas.