A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 05/10/2021
A obra “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus, retratada a rotina da autora, na década de 70, marcada pela fome. Apesar da distância temporal, a realidade vivenciada por Carolina ainda assombra o cotidiano de muitos brasileiros, principalmente em tempos de pandemia, na qual a insegurança alimentar se intensificou no país, sendo reflexo da negligência governamental e da herança colonial. Diante desse cenário, é conveniente a averiguação desse problema.
Em primeira análise, é importante salientar a inoperância estatal como um dos motivadores da problemática no Brasil. Sob essa ótica, Thomas Hobbes, filósofo inglês, afirma que é dever do Estado proporcionar meios que contribuam para o desenvolvimento de todo o corpo social. No entanto, tal premissa não corresponde à realidade brasileira, visto que as autoridades governamentais não priorizam a realização de atitudes efetivas em relação à permanência e à intensificação do quadro de fome no país, que representa um entrave para o progresso nacional. Tal conjuntura pode ser verificada na carência de assistência financeira às famílias em situação de insegurança alimentar, principalmente em meio a situações extremas como cenários pandêmicos. Dessa forma, é imprescindível que haja reação do Estado para que esse revés seja solucionado.
Em segunda análise, é necessário evidenciar, também, o legado de estruturas da antiga colônia como outro fator precursor da fome no país. Acerca disso, Sérgio Buarque de Holanda, sociólogo brasileiro, defende, em sua obra “O Homem Cordial”, que o Brasil não conseguiu romper com suas heranças coloniais. Tal realidade pode ser verificada na persistência da ausência de investimentos ao abastecimento interno de alimentos, visto que a sociedade brasileira, assim como no período colonial, ainda prioriza a produção agrária para a exportação ao invés da agricultura familiar, principal atividade responsável pela produção de comida consumida no país, o que encarece a alimentação e intensifica a fome. Assim, verifica-se que a solução do problema perpassa a superação do legado da antiga colônia pela nação.
Portanto, é indubitável intervir sobre esse cenário. Para isso, cabe Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, enquanto responsável pelas políticas públicas de estímulo ao agronegócio, promover a assistência aos pequenos produtores. Isso deve ser feito por meio de maiores investimentos no setor da agricultura familiar, a fim de diminuir o custo da comida no país, tornando, assim, a alimentação mais democrática e combatendo, desse modo, a fome. A partir dessa ação, será possível melhorar a atual realidade brasileira.