A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 14/10/2021
Na obra literária “A menina que roubava livros”, de autoria de Markus Zusak, Liesel, residente alemã na década de 40, convive com a miséria trazida pela Segunda Guerra Mundial, o que explicita como grandes crises afetam diretamente o cotidiano individual. Mediante ao exposto, ao colocar em paralelo o episódio supracitado com a disseminação do Coronavírus, observa-se como são advindas problemáticas a tal tragédia sanitária, dentre as quais a insuficiência de alimento emerge, fator que evidencia a desigualdade na sociedade e põe em pauta a questão da fome na pandemia. Por isso, graças a fatores econômicos e sociais a conjectura perturba a coletividade.
Em primeiro plano, a falta de circulação de pessoas e, consequentemente, de capital corrobora o cenário. Nesse sentido, a Crise de 1929, nos Estados Unidos, teve como estopim o desequilíbrio entre a produção excessiva e o consumo insuficiente, o que gerou fraturas na sociedade americana, como o desemprego massivo. Dessa forma, a partir do momento em que, graças ao isolamento da pandemia, há uma escassez de consumo, paralelamente ao quadro estadunidense, faz-se ausente a necessidade de mão de obra, o que interrompe o ciclo de geração de renda e limita o acesso da população trabalhadora a recursos básicos, como a comida, fator que torna a falta de alimentos intrínseca ao impacto econômico do Coronavírus. Logo, a Covid-19 é tida como um agente causador da desnutrição.
Ademais, o individualismo concomitante ao isolamento social na pandemia agrava, ainda mais, a conjuntura. Nesse viés, o conceito de “sociedade líquida”, formulado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, defende que as interações interpessoais se tornaram mais efêmeras e superficiais na contemporaneidade, o que intensifica a fluidez das relações. Desse modo, no instante em que há um distanciamento social, as ligações que forma a coletividade se enfraquecem e, dessa maneira, diminui o espírito de austeridade ao próximo, o que torna real não só o isolamento físico, mas o desamparo em meio à coletividade das classes menos abastadas, fator que as tornam expostas às mazelas da sociedade, como a fome causada pelo Coronavírus. Assim, são necessárias medidas interventivas.
Portanto, depreende-se que a questão da fome em período pandêmico é um desafio e carece de soluções. Sendo assim, o Estado deve, ao lançar mão dos censos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, por meio da promoção de programas de auxílio nas áreas mapeadas mais prejudicadas pela Covid-19, dar acesso aos recursos básicos alimentícios individuais àqueles carentes, a fim de atenuar as problemáticas sociais advindas à pandemia e, dessa forma, prevenir as cicatrizes a longo prazo deixadas pelo período, para que, assim, não haja tão gritante prejuízo à coletividade, como visto no episódio de Liesel em “A menina que roubava livros”.