A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 15/10/2021
O livro “Capitães de Areia” escrito no início do século XX, por Jorge Amado, escritor brasileiro, denuncia o padecimento da população mais pobre afetada com a epidemia da época: a varíola. Na atualidade, em pleno século XXI, com a pandemia do novo coronavírus, história semelhante se reprisa. Da mesma forma, a população mais carente continua sendo a que mais sofre os impactos dessa situação e o principal problema advindo dela é a fome, causada por negligências governamentais e por desigualdades sociais históricas, tornando ainda mais dramático o cenário pandêmico no Brasil.
Primeiramente, o descaso do governo brasileiro é o maior agravante da insegurança alimentar durante a crise sanitária vivida no país, porque, apesar da Constituição Federal de 1988 assegurar em seu artigo 1.º, o respeito à dignidade humana, isso não acontece na prática, como postulado por Gilberto Dimenstein, sociólogo brasileiro, em “O cidadão de papel”: que existem leis e direitos no país, mas que esses ficam só na teoria. Além disso, na pandemia o quadro socioeconômico do país ficou mais afetado, aumentando assim o percentual de extrema pobreza e colocando o Brasil entre os focos emergentes da fome, conforme aponta relatório da Organização Humanitária – Oxfam, de julho de 2021.
Ademais, esses problemas históricos do Brasil atuam concomitantemente na acentuação da questão em pauta. Isso se dá devido à colonização e à escravidão, vividas em terras brasileiras, que causou exclusões sociais e contribuíram em colocar o Brasil em 7º lugar em desigualdade do mundo, segundo o último relatório anual divulgado em 2019 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Logo, essa situação de disparidade na distribuição de bens e condições só piora com a crise generalizada e o agravamento da fome, trazidos pela pandemia. Assim, se faz urgente a adoção de medidas de combate a essa desigualdade, pois já dizia o sociólogo brasileiro, Herbert de Souza, na década de 90, “Quem tem fome tem pressa” e essa pressa é o que os mais desprovidos têm.
Portanto, cabe ao Ministério da Cidadania desenvolver projetos com ênfase nas regiões mais necessitadas, com a ampliação dos restaurantes populares e a distribuição de cestas básicas, por intermédio dos estados, visando a promoção de dignidade às pessoas em situação de vulnerabilidade social, a fim de reduzir a miséria e a fome no Brasil. Ainda cabe aos Ministérios da Educação e do Trabalho em parceria com empresas privadas, criar cursos profissionalizantes gratuitos para jovens de baixa renda, com a finalidade de inserí-los no mercado de trabalho, revertendo assim o histórico brasileiro e garantindo de fato e não só no papel, o direito básico de todo cidadão à alimentação.