A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 28/10/2021
O quadro “O grito”, do pintor norueguês Edvard Munch, retrata a inquietude, o medo e a desesperança refletidos no semblante de um personagem envolto por uma atmosfera de profunda desolação. Para além da obra, observa-se que, na conjuntura brasileira contemporânea, o sentimento de milhares de indivíduos assolados pela fome durante a pandemia é, amiudadamente, semelhante ao iliustrado pelo artista. Nesse viés, torna-se crucial analisar as causas desse revés, dentre as quais se destacam a negligência governamental e a desigualdade social.
A princípio, é imperioso notar que a indiligência do Estado potencializa o problema. Esse contexto de inoperância das esferas de poder exemplifica a teoria das Instituições Zumbis, do sociólogo Zygmunt Bauman, que as descreve como presentes na sociedade, todavia, sem cumprirem sua função social com eficácia. Sob essa ótica, segundo o site de notícias G1, devido à baixa atuação das autoridades, dezenove milhões de brasileiros acordam atualmente sem saber se vão conseguir alguma refeição para o dia. Nessa perspectiva, para a completa refutação da teoria do estudioso polonês e mudança dessa realidade, faz-se imprescindível uma intervenção estatal.
Outrossim, é igualmente preciso apontar a desigualdade social como outro fator que contribui para a manutenção do imbróglio. Posto isso, a Constituição Cidadã de 1988 garante a todo cidadão o direito, dentre outros, à alimentação. Contudo, a ausência de programas governamentais voltados à população mais pobre, impede que parte dos brasileiros desfrutem desse direito constitucional na prática, o que evidencia um quadro acentuado de assimetria social no país. Ademais, de acordo com dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança alimentar em Contexto de Covid, 55,2% da população brasileira sofre alguma ameaça ao direito aos alimentos. Logo, é inadmissível que esse cenário continue a perdurar.
Dessarte, são necessárias medidas capazes de mitigar o impasse. Portanto, o Tribunal de Contas deve direcionar capital que, por intermédio do Ministério da Cidadania, será revertido na criação de programas sociais eficientes que promovam a justa distribuição mensal de renda e cestas básicas aos mais necessitados. Paralelamente, é imperativo que uma fiscalização ativa seja feita por parte do governo, que vise garantir a correta inscrição e distribuição da renda e da alimentação para o público alvo em questão, na busca da simetria social. Espera-se, assim, que os sofrimentos emocionais retratados por Munch delimitem-se apenas ao plano artístico. Pois, como disse Peter Drucker, a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.