A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 29/10/2021
“O quarto de despejo” é um livro escrito por Carolina de Jesus, uma catadora de papel que se muda para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. A obra, por ser um diário, mostra a situação de fome e miséria vivida por Carolina no século XX, mas se faz extremamente atual ao se constatar que ainda existem milhares de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza e, por isso, não possuem, sequer, o que comer, questão que foi agravada pela recente pandemia do coronavírus. A partir desse contexto, para entender o impacto da pandemia no aumento dos índices de subalimentação na conjuntura social atual, é necessário ir à origem do problema.
Nesse sentido, percebe-se que a fome advém da histórica desigualdade social existente no Brasil. Isso ocorre, pois, de acordo com o ativista Josué de Castro, o qual afirma, no século XX, que “a fome não é resultante de um excesso populacional, mas sim de uma má distribuição da renda”, o histórico de subalimentação se dá pela falta de recursos coletivos para promover uma nutrição de qualidade. Sob esse viés, percebe-se que os índices de fome não são uma questão atual causada apenas por uma pandemia, e sim uma problemática antiga, causada pela desigualdade existente no Brasil. Esta que já foi denunciada não só pela voz de Carolina de Jesus, na literatura, como também na tela “Os Retirantes”, de Candido Portinari, e na mais recente produção audiovisual da Netflix : “O Poço”.
Ademais, percebe-se que tal legado é intensificado com a ocorrência de uma pandemia, ou seja, disseminação mundial de uma doença. Isso pois, ao tomar como base o pensamento do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, o qual afirma que “A pedagogia do vírus é cruel, porque agrava questões de vulnerabilidade social, mas não trata todos da mesma maneira”, vê-se que, na verdade, a fome continua atingindo as camadas mais baixas da sociedade, todavia de forma mais acentuada. Prova disso estão nos dados da FVG, os quais afirmam que existem cerca de 27 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza no Brasil, mesmo que, segundo a Oxfam, o número de ricos no país tenha aumentado no ano de 2020. Assim, percebe-se que a pandemia amplia cenário de fome e precariedade entre a população mais frágil.
Portanto, é necessário que o Poder Executivo Federal, mais especificamente o Ministério da Cidadania, responsável pelo desenvolvimento social, incentive o combate à fome. Tal ação ocorrerá por meio de um “Projeto Nacional de Combate à Fome”, o qual deve destinar recursos às famílias necessitadas. Isso será feito, a fim de promover uma sociedade com melhor qualidade alimentícia, mesmo em tempos de pandemia. Afinal, é importante que Carolina de Jesus seja lembrada por seus relatos, mas que “Carolinas” não sejam mais uma realidade no Brasil.