A questão da fome em tempos de pandemia

Enviada em 30/10/2021

“Vi ontem um bicho catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava, engolia com voracidade. O bicho não era um cão, um gato ou um rato. O bicho, meu Deus, era um homem”. O poema de Manuel Bandeira, escritor brasileiro, retrata a miséria e a vulnerabilidade humana. A fome, que desde 2010 vem aumentando no Brasil e no mundo, teve uma alta exponencial em 2020 e 2021 por conta da pandemia, a qual impõe aos países recessão econômica e agravamento das desigualdades sociais. A problemática dos famintos é grave e medidas devem ser tomadas urgentemente para mitigar a celeuma.

De fato,  a insegurança alimentar não é datada somente na contemporaneidade. A ONU, desde os anos 2000, adotou os “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, dentre os quais extinguir com a fome do planeta era uma das principais metas. Entretanto, passados vinte anos, a população carente de alimentos ainda mostra-se crescente e alarmante. Para ilustrar o desespero por uma refeição, tem-se o diário de Carolina Maria de Jesus, intitulado de “Quarto de Despejo”, no qual a protagonista mora na favela do Canindé, é catadora de papel e todos os dias é assolada pelo choro de seus filhos, por conta dos estômagos vazios. A maior felicidade para a escritora eram os restos de ossos dados, por um açouque, para fazer sopa. Diante disso, percebe-se a questão infeliz e urgente da fome, já que um prato de comida é capaz de felicitar uma pessoa.

Nesse sentido, com a pandemia e a recessão financeira, houve o aumento da vulnerabilidade alimentar e econômica dos indivíduos. Segundo dados de pesquisas confiáveis, mais de 1/4 da população mundial não tinha acesso a refeições adequadas durante o ano de 2020. Além disso, 60 milhões de cidadãos da América Latina e Caribe não tinham certeza se no dia seguinte conseguiriam algo para comer. Logo, a miséria desumaniza os homens, rebaixando-os a bichos, tal qual o poema de Manuel Bandeira. Ademais, a celeuma da fome é, de certo modo permanente, visto as desigualdades de distribuição de renda. Por exemplo, no antigo documentário “A ilha da flores”, os moradores pobres da região se atropelavam para angariar restos de verduras que os porcos rejeitaram. Paralelamente, na atualidade, formam-se filas na frente de açouques e as pessoas comem até mesmo os restos da carne crua dos ossos. Por isso, medidas são necessárias para que a integridade humana seja preservada.

Portanto, é mister o fortalecimento de ONG’s de combate a fome, por meio de incentivo e ajuda financeira do Estado, a fim de assistir a pessoas carentes de alimentos, com a distribuição gratuita de refeições, principalmente no período atual da pandemia, em que a renda familiar apresenta déficits. Tudo isso para mitigar sofrimentos oriundos do estômago vazio como os da família de Carolina Maria.