A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 04/11/2021
O poema “Vou-me embora para Pasárgada”, de autoria de Manuel Bandeira - famoso poeta modernista - exprime o desejo de fuga da realidade do literato. Nesse sentido, muitos brasileiros dividem o anseio de subterfúgio com o célebre poeta, uma vez que a questão da fome no Brasil, que só fez aumentar desde o ínicio da pandemia da COVID-19, é um imbróglio presente no cotidiano da sociedade. Sob essa perspectiva, a manutenção desse infortúnio no corpo social brasileiro deve-se à banalização da situação de miséria vivida por uma parcela da sociedade, bem como ao aumento nos preços de produtos alimentícios.
Conforme a Teoria Habitus, elaborada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, a sociedade possui padrões que são impostos, naturalizados e, posteriormente, reproduzidos pelos indivíduos. Logo, tal tese exemplifica, acertadamente, o ciclo de ações que promovem a continuidade da temática da fome em solo brasileiro, visto que é perceptível no dia-a-dia a falta de solicitude dos cidadãos em atender a pedidos de doações de alimentos para campanhas, que visam mitigar a fome da população, por exemplo. Cabe ressaltar que, de acordo com dados do o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar em Contexto de Covid, revelam que 55,2% da população brasileira poderá sofrer com a fome.
Por outras palavras, a acentuação nos números de pessoas que enfrentam a fome diariamente deve-se ao pensamento comum de que a situação de extrema necessidade, que leva pessoas a buscar restos de alimentos, é esporádica. Contudo, em Cuiabá, com o agravamento da pandemia e consequente aumento de desempregados, tornou-se regular que habitantes façam filas em portas de açougues que doam restos de carne não comerciáveis, como ossos. Ademais, o tema da fome nacional, também é resultado dos aumentos colossais dos alimentos, que obrigou os trabalhadores a buscarem produtos de segunda linha, como o feijão bandinha e o arroz fragmentado, ou deixar de comprar esses itens considerados básicos na alimentação do brasileiro. Diante desse cenário, para que a fuga, tal como aspirava Bandeira, não seja necessária, intevenções devem serem feitas.
Isto posto, assim como afirma o filósofo contratualista John Locke, cabe ao estado assegurar o bem-estar da população. Desse modo, é preciso que o Ministério da Economia, através da oferta de dedução de impostos, busque financiamentos, junto a organizações como o Lions Clube Internacional, que conta com um programa piloto de subsídios para a fome, visando a contrução de bancos de distribuição de alimentos em todo território brasileiro. Além disso, é necessário que as emissoras busquem divulgar campanhas de arrecadação de alimentos, buscando, assim, a adesão de moradores, para dessa forma dissipar as taxas da fome brasileira.