A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 14/11/2021
Conforme o sociólogo Thomas Humphrey Marshall, cidadania é o conjunto de direitos civis, sociais e políticos garantidos por uma Constituição. Por esse prisma, a dignidade humana e o bem-estar social são necessários para essa condição de cidadão, visto que remetem a um dos mais importantes privilégios democráticos: o acesso à alimentação. Nesse viés, para compreender a fome em tempos de pandemia - adversidade crescente que contraria tal garantia supracitada -, é mister analisar as questões que alicerçam a existência do problema, dentre as quais destacam-se a desigualdade social preexistente e a indiferença do corpo social. Urge, pois, a desconstrução desse cenário áspero.
A princípio, é fundamental compreender a desigualdade social como um dos protagonistas do problema. Para entender tal apontamento, é válido destacar a perspectiva do escritor Ariano Suassuna, na medida em que ele defende que a nação brasileira está dividida em duas vertentes: a dos favorecidos e a dos despossuídos. Sob tal ótica, é perceptível que tal pensamento se reverbera na realidade hodierna, ao passo que a pandemia acentuou o quadro de pobreza e fome dos indivíduos em situação de vulnerabilidade social, isto é, daqueles que vivem à margem da sociedade. Dessa forma, o desemprego e a baixa renda impedem a compra de alimentos por essa população, fato que, infelizmente, justifica a posição brasileira entre os 10 países mais desiguais, conforme o Índice de Gini.
Outrossim, é igualmente preciso ressaltar a impassibilidade social como outro fator propulsor do revés. Nesse aspecto, o sociólogo Zygmunt Bauman, na obra “Modernidade Líquida”, defende que vivemos em tempos líquidos, ou seja, uma época na qual as relações humanas são caracterizadas pelo individualismo e fugacidade. Essa questão é pertinente, pois, os indivíduos da sociedade moderna, imersos em si mesmos, se posicionam de maneira inerte frente às mazelas sociais. Consequentemente, essa postura passiva contribui para o silenciamento e a invisibilidade dos problemas alheios, realidade que impede que parcela da sociedade usufrua do Artigo 6º da Constituição, o acesso à alimentação.
Destarte, entende-se o descaso com a questão da fome como uma patologia social, tornando premente a remodelação da aliança entre democracia e justiça pública. Para tanto, o Poder Público, em coadjuvação com o Ministério da Cidadania, deve ampliar as políticas de assistência alimentar para indivíduos de baixa renda, sobretudo em comunidades periféricas e rurais, de modo a impedir o avanço do quadro da fome no país. Ademais, a Mídia tem a função de fomentar uma visão crítico-política nos indivíduos, via ficções engajadas e pedagógicas, por meio de tramas que suscitem a mobilização social para doação de alimentos, para que por fim se alcance a solidariedade social e o respeito mútuo.