A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 16/11/2021
Cultuado no cenário nacional e internacional, o livro “Quarto de Despejo - o diário de uma favelada”, escrito por Carolina Maria de Jesus, retrata a dura realidade vivenciada pela autora em meados do século passado, ao expor as misérias da fome no Brasil daquele momento. No entanto, embora tenha passado um imenso lapso temporal, o país se vê outra vez diante de um momento de insegurança alimentar, agravado pelo contexto de pandemia, e intensificado, principalmente, em razão das desigualdades sociais e das preferências do Governo pelo abastecimento do mercado externo.
Em primeiro lugar, destaca-se que a fome durante a pandemia vem sendo acentuada em função das desigualdades sociais historicamente estabelecidas no país, reafirmando a tese de Darcy Ribeiro, etnógrafo brasileiro, de que o Brasil é uma máquina de moer gente. Este cenário pode ser ilustrado pelos dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar em Contexto de COVID, apresentados pelas entidades da sociedade civil voltadas para segurança alimentar, que declaram que a questão intensifica-se, principalmente, para as vítimas da extrema pobreza, sobretudo para mulheres pretas ou pardas, em condições de subempregos. Assim, constata-se que a fome é também um problema de classe, raça e gênero, entrelaçada às vulnerabilidades da sociedade brasileira.
Em segundo lugar, o quadro de insegurança alimentar durante a pandemia é intensificado, também, em razão da preferência do governo em atender as demandas do mercado externo. Isto pode ser comprovado pelo fato de o Brasil ser um dos maiores produtores de carne e de verdura do mundo, não obstante, esses números não refletem na alimentação da população. Neste sentido, pode-se identificar essa escolha ao ser extinta a reserva de alimentos do Governo Federal, idealizada para manter os preços baixos no mercado interno. Com isso, observa-se que a fome diante da abundância de produção é também fruto de uma política de governo, atrelada a interesses econômicos do mercado internacional.
Por isso, a fim de diminuir a fome causada pelo contexto de crise pandêmica, cabe ao Governo Federal, por meio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, retomar a política de incentivo ao mercado interno, buscando a reestruturação da reserva de alimentos básicos e financiando incentivos ao pequeno produtor, no intuito de assegurar preços baixos para a cesta básica e, consequentemente, garantir alimento, principalmente, àqueles mais vulnerabilizados. Dessa forma, deixaremos de encarar o quarto de despejo como retrato da sociedade atual e passaremos a olhar como a construção histórica de um país justo e fraterno.