A questão da fome em tempos de pandemia

Enviada em 20/11/2021

Manoel de Barros, grande poeta pós-modernista, desenvolveu em suas obras uma “teologia do traste”, cuja principal característica reside em dar valor às situações frequentemente esquecidas ou ignoradas. Segundo a lógica barrosiana, faz-se preciso, portanto, valorizar também a problemática da fome em tempos de pandemia , ainda que ela seja estigmatizada por parte da sociedade. Nesse sentido, a fim de mitigar os males relativos a essa temática, é importante analisar a negligência governamental e a alienação social.

A princípio, é imperioso notar que a indiligência do Estado potencializa a fome. Esse contexto de inoperância das esferas de poder exemplifica a teoria das Instituições Zumbis, do sociólogo Zygmunt Bauman, que as descreve como presentes na sociedade, todavia, sem cumprirem sua função social com eficácia. Sob essa ótica, devido à baixa atuação de investimenos em espaços para de alimentação gratuita, para pessoas de baixa renda, baixo valor de auxílio a pessoas carentes, o Estado não cumpri o seu papel na prática. Nessa perspectiva, para a completa refutação da teoria do estudioso polonês e mudança dessa realidade, faz-se imprescindível uma intervenção estatal

Além disso, uma grande parcela da população se mostra alienada em relação a fome sofrida pelas pessoas durante a pandemia. O intitulado “Paradoxo da Moral” é um livro escrito pelo musicólogo Vladimir Jankélévitch para exemplificar a cegueira ética do homem moderno, ou seja, a passividade das pessoas frente aos impasses enfrentados pelo próximo. De maneira análoga, percebe-se que a fome encontra um forte alicerce na estagnação social, consequência da falta de discussão do tema no ambiente educacional. Essa situação ocorre porque, infelizmente, a sociedade não se movimenta em prol da erradicação da problemática, pelo contrário, ela adquire uma posição individualista por não mensurar as consequências que a fome traz consigo, como a desnutrição-grave problema de saúde-, ou até a morte dos indivíduos. Assim, faz-se mister a reformulação dessa postura social de forma urgente.

Compreende-se, portanto, a necessidade de se combater esses obstáculos. Para isso, é imprescindível que o governo federal, com o apoio do Ministério Educação e dos Direitos Humanos, por meio de verbas governamentais destinadas à pasta, deve disponibilizar alimentos em praças públicas, a fim de garantir uma alimentão as pessoas que vivem na miséria. É necessário, também, exibir propagandas educativas de conscientização sobre a temática nos meios midiáticos. Essas ações serão realizadas com o intuito de promover a erradicação da fome para que a sociedade não naturalize a alienação que a permeia. Dessa maneira, o Brasil deixará de praticar a “teologia do traste”, como proferiu Manoel de Barros.