A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 16/01/2022
O quadro expressionista “O grito”, do pintor norueguês Edvard Munch, retrata a inquietude, o medo e a desesperança refletidos no semblante de um personagem envolto por uma atmosfera de profunda desolação. Para além da obra, observa-se que, na conjuntura brasileira contemporânea, o sentimento de milhares de indivíduos assolados pela fome em tempos de pandemia é, amiudamente, semelhante ao ilustrado pelo artista. Nesse viés, torna-se crucial analisar as causas desse revés, dentre as quais se destacam a negligência governamental e a recessão econômica decorrente da pandemia.
A princípio, é imperioso notar que a indiligência do Estado potencializa a fome em tempos de pandemia. Esse contexto de inoperância das esferas de poder exemplifica a teoria das Instituições Zumbis, do sociólogo Zygmunt Bauman, que as descreve como presentes na sociedade, todavia, sem cumprirem sua função social com eficácia. Sob essa ótica, devido à baixa atuação das autoridades, a assistência social às famílias carentes não é eficaz no atendimento às situações de insegurança alimentar e nutricional dessas pessoas. Nessa perspectiva, para a completa refutação da teoria do estudioso polonês e mudança dessa realidade, faz-se imprescindível uma intervenção estatal.
Outrossim, é igualmente preciso apontar a recessão econômica decorrente da pandemia como outro fator que contribui para a manutenção da fome nesse referido momento. Posto isso, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas a fome mundial em 2020 foi agravada, com a estimativa de que um décimo da população global, até 811 milhões de pessoas, sofreram com a fome no ano passado. Diante de tal exposto, em razão da pandemia e de medidas necessárias, como o lockdown, muitas pessoas perderam seus empregos e a economia reduziu em muito sua atividade produtiva, agravando a situação de fome das pessoas mais desassistidas. Logo, é inadmissível que esse cenário continue a perdurar.
Portanto, são necessárias medidas capazes de mitigar a questão da fome em tempos de pandemia. Dessarte, a fim de garantir segurança alimentar para as famílias carentes, é preciso que o Estado, por intermédio dos Centros de Referência em Assistência Social, identifique as famílias em condição de insegurança alimentar e nutricional e garanta o fornecimento de cestas básica ou auxílio em dinheiro, Paralelamente, é imperativo que o Estado intervenha na economia, por meio de subsídios ou incentivos fiscais para fomentar as atividades econômicas e reacender a economia, para garantir a produção nacional e o pleno emprego, o que garantiria preços mais acessíveis dos alimentos e renda para as pessoas. Espera-se, assim, que os sofrimentos emocionais retratados por Munch delimitem-se apenas ao plano artístico.