A questão da fome em tempos de pandemia
Enviada em 29/05/2022
Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros frente à miséria alimentícia é uma das faces mais perversas de uma sociedade em desenvolvimento. Com isso, surge a problemática do preconceito que persiste intrinsecamente ligado à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social.
É indubitável que a questão constitucional e sua aplicação estejam entre as causas do problema. Conforme Aristóteles, a poética deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De maneira análoga, é possível perceber que, no Brasil, os altos índices de desnutrição rompe essa harmonia; haja vista que, embora esteja previsto na Constituição o princípio da isonomia, no qual todos devem ser tratados igualmente, muitos cidadãos se utilizam da inferioridade financeira para externar ofensas e excluir socialmente pessoas diferentes.
Outro ponto relevante, nessa temática, é o conceito de modernidade líquida de Zygmunt Bauman, que explica a queda das atitudes éticas pela fluidez dos valores, a fim de atender aos interesses pessoais, aumentando o individualismo. Desse modo, o sujeito, ao estar imersos nesse panorama líquido, acaba por perpetuar a exclusão e a dificuldade de obtenção de uma alimentação digna para todos, por causa da redução do olhar sobre o bem-estar dos menos favorecidos. Em vista disso, os desafios para uma melhora nutricional estão presentes na estruturação desigual e opressora da coletividade, bem como em seu viés individualista, diminuindo as oportunidades sociais dessa parcela populacional.
Infere-se, portanto, uma tribulação no cenário nacional. Nesse prisma, o método de resolver tal atrocidade, em qualquer Estado da Federação, é por meio das verbas da União. Por conseguinte, o Poder Executivo deve, conjuntamente com os grandes produtores agrícolas, criar inúmeros espaços estratégicos, os quais distribuirão produtos alimentícios que serão entregues aos mais necessitados. Logo, será possível a extinção de um legado histórico miserável.