A questão da fome no Brasil e seus fatores motivadores
Enviada em 16/06/2021
O filme “O menino que descobriu o vento”, distribuído pela plataforma de streaming Netflix, acompanha o jovem William e o sofrimento de sua tribo diante da falta de alimentos, ao ponto de ser necessária a escolha de apenas uma refeição para fazer por dia. Fora das telas, percebe-se uma situação análoga com a vida de milhões de brasileiros, uma vez que a fome no país ainda é um desafio, motivada pela inobservância do consumo interno e a concentração fundiária.
A princípio, destaca-se a atenção de empresas, e até do Governo, sempre voltada para a exportação. Nesse contexto, analisa-se que já no período colonial havia o predomínio desse fenômeno, uma vez que era priorizado o envio de açúcar, café, algodão, tabaco e ouro em detrimento da plantação de gêneros que sustentariam a população e variariam sua alimentação. De mesmo modo, constata-se, de acordo com um estudo feito pela UNICAMP e outras universidades, que os 10% maiores imóveis ocupam 73% da área agrícola do Brasil. Logo, entende-se que a maior parte das terras produtivas são destinadas as monoculturas que serão enviadas para o exterior, perpetuando por séculos até o presente a negligência perante a alimentação do povo brasileiro, que passa fome.
Outrossim, observa-se que a concentração de terras também é grande motivadora do problema da fome no Brasil. Primeiramente, deve-se destacar que de acordo com o IBGE, 70% do consumo interno é sustentado pela agricultura familiar, assim, entende-se que grande parte do país depende da mesma. Continuamente, Padre Antônio Vieira, no Sermão dos Peixes, destaca, através de uma metáfora para ricos e pobres, que os “grandes” comem os “pequenos”. Nesse sentido, encontra-se uma analogia no que tange ao acúmulo de terras improdutivas por grandes proprietários, enquanto não há terras suficientes para os pequenos produtores ou condições para comprá-las. Logo, fica claro que na falta de terras, o pequeno agricultor e muitos brasileiros que são sustentados pela agricultura familiar passam fome, assim como o jovem William e sua tribo assistidos através da plataforma Netflix.
Destarte, infere-se que a fome e seus motivadores são desafios que devem ser combatidos. Por isso, cabe ao Ministério da Agricultura voltar sua atenção para os pequenos produtores através da organização de programas de investimentos e incentivos a modernização da agricultura familiar, vindos das próprias grandes empresas por trás da concentração de terras e exportação. Cabe também ao Ministério da Fazenda implementar programas que reduzam ou isentem impostos para novos compradores e produtores em pequenas propriedades voltadas para a agricultura familiar, incentivando que essa vertente da produção agrícola cresça. Desse modo, mitigando a negligência do consumo interno e a concentração fundiária, por conseguinte também o problema da fome brasileira.