A questão da fome no Brasil e seus fatores motivadores

Enviada em 30/06/2021

No filme espanhol “O poço”, prisioneiros são confinados em uma torre vertical e podem apenas se alimentar dos restos de comida dos níveis acima. Na narrativa, fica clara a disparidade do luxo dos primeiros andares comparada à miséria dos últimos, analogicamente à realidade. Fora da ficção, infelizmente, a questão da fome no Brasil está atrelada a desigualdade social e a má distribuição de recursos de uma sociedade verticalmente hierarquizada. Assim, faz-se imprescindível a dissolução dessa conjuntura.

Nesse contexto, a princípio, vale ressaltar que a grande desigualdade social tem origem do etnocentrismo, fortemente induzido no período colonial e que persiste no corpo social brasileiro contemporâneo. Sendo assim, as pessoas do sexo feminino e a população negra sofre mais com o tema, visto que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, em domicílios chefiados por pessoas negras, 85% apresentam algum grau de insegurança alimentar. É paradoxal observar a pluralidade de etnias na sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, a lamentável prática de discriminação às diferenças.

Ademais, parafraseando o renomado filósofo Thomas Hobbes, a função do Estado é garantir os direitos essenciais a todos. Entretanto, o governo se relaciona com a sociedade do modo omisso e negligente, já que, o Brasil é o terceiro país que mais exporta alimento no mundo e, ainda assim, de acordo com o IBGE, mais de 10 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave. Logo, tais dados evidenciam como a mentalidade capitalista influencia negativamente na distribuição de recursos, sendo que a crescente exportação aumenta o preço dos alimentos e, consequentemente, o afastamento do direito ao acesso à alimentação promulgada na constituição. Dessa maneira, é possível perceber o quão improvidente é a atitude da máquina pública.

É inaceitável, portanto, que exista uma parcela significativa afetada por falta de acesso à alimentação no país. Destarte, o Ministério Público, por intermediário de verbas orçamentais, desenvolva políticas públicas focadas nos mais vulneráveis, para auxiliar na qualidade de vida dessas minorias. Outrossim, cabe às Organizações Não Governamentais - ONGs - em parceria com a mídia, por meio de comerciais televisivos e anúncios nas grandes plataformas digitais, promover campanhas de incentivo aos restaurantes populares, com intuito de tornar a comida acessível à todas as classes sociais. Feito isso, os desafios atrelados à fome serão mitigados, e o pensamento de Hobbes poderá ser consumado.