A questão da fome no Brasil e seus fatores motivadores
Enviada em 22/06/2021
O livro “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, trata-se de um diário que alude ao cotidiano da autora, moradora da favela do Canindé - em São Paulo - como catadora de papel, ao descrever a triste e difícil realidade da fome por ela vivenciada. Dessarte, assim como a rotina degradante retratada pela escritora, que muitas vezes teve que recorrer ao lixo em busca de comida, muitos brasileiros são reféns da subalimentação. Com base nisso, é imprescindível analisar o que motiva essa problemática, a saber, o naturalizado desperdício de mantimentos, bem como sua má distribuição.
Nesse sentido, o desaproveitamento de comida está diretamente ligado a um tecido social que permanece na cultura do consumo irrefletido. Isso se dá porque, em face dos meios midiáticos serem a principal fonte de divulgação de produtos, há um estímulo ao consumo, majoritariamente, motivado pela propaganda. Sob essa ótica, ao tomar como base o longa-metragem brasileiro “Muito além do peso”, o qual demonstra a influência midiática na alimentação exacerbada, em se tratando de uma conduta que se inicia na infância e reflete nas práticas na vida adulta, tem-se uma sociedade que torna habitual a falta de sensibilidade quanto ao desperdício e isenta da percepção da realidade dos sujeitos que estão em estágio de padecimento.
Outrossim, observa-se que a persistência da fome é decorrente do acesso desigual aos mantimentos. Nesse viés, partindo do pensamento do geógrafo Josué de Castro, para quem o fator da subnutrição é resultado da má distribuição dos alimentos, é notório que as desigualdades sociais continuam reverberando na sociedade brasileira. Essa questão ocorre devido a estrutura latifundiária brasileira ser tão hegemônica no país, que permite uma distribuição injusta de terras e faz com que muitas famílias vivam em um estágio de extrema miséria, de forma que esses indivíduos não tenham, sequer, oportunidade para plantar o próprio alimento. Um exemplo disso é a o cenário vivenciado por fabiano e sua família, na obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, ao encontrarem uma fazenda abandonada e descobrirem que, na verdade, ela pertencia a um grande fazendeiro, o que fez com que eles fossem explorados e perdessem perspectivas de mudança em sua condição.
Portanto, cabe ao Ministério da Cidadania elaborar simpósios propagados por meios midiáticos, como internet e televisão, e redigidos por profissionais em Recursos Humanos e pessoas que já vivenciaram a subalimentação. Além disso, compete ao Ministério do Desenvolvimento Regional auxiliar pessoas que estão em vulnerabilidade financeira, mediante uma taxa de até um salário mínimo e meio - processo que será feito a partir da análise socioeconômica da família. Essas ações têm como intuito, respectivamente, a diminuição do desperdício de aimentos e a mitigação de sua má distribuição.