A questão da fome no Brasil e seus fatores motivadores
Enviada em 01/07/2021
A obra “O Cidadão de Papel”, do jornalista Gilberto Dimenstein, avalia que os direitos dos brasileiros restringem-se à forma da lei, o que constitui cidadanias fictícias. Nesse sentido, ainda que a alimentação seja assegurada constitucionalmente, a questão da fome mostra-se um grave problema no Brasil que – motivado por um Estado inerte e por uma sociedade alienada - evidencia a crítica feita por Dimensteim, devendo, portanto, ser solucionado.
Sob esse viés, é importanto destacar que a ineficácia estatal, ao não garantir recursos mínimos à população, como emprego e renda, provoca miséria e, consequentemente, fome. Como analogia, o filósofo Émile Durkheim explica que a sociedade pode ser comparada a um corpo biológico, pois, assim como este, é composta por partes interdependentes. Com tal perspectiva, presumindo-se a centralidade do governo nessa estrutura, observa-se sua total inoperância diante de aproximadamente 40% de brasileiros em situação de insegurança alimentar e outros 5% que não tinham o que comer em 2018 (fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE). Diante disso, constata-se, inaceita-velmente, que é o órgão vital o que impossibilita o coeso e equânime funcionamento do corpo social.
Ademais, a apatia de um grupo também faz parte dos motivos da problemática em questão. Tal premissa pode ser analizada a partir do conceito da “banalidade do mal”, da filósofa política Hannah Arendt, em que a acriticidade e o distanciamento internalizados por uma parcela produzem uma sen-sação de normalidade geral, mesmo diante de uma notória exclusão social. Sob esse aspecto, ao imple-mentar uma lógica exclusiva de ganho, o que eleva o país nos ranques gerais de produção e exporta-ção, internaliza-se uma prática aparentemente benéfica à população, mas que, na prática, têm gerado concentração de renda para poucos e fome para muitos. Desse modo, observa-se que a alienação dos que usufruem direitos promove as vicissitudes dos “cidadãos de papel”, tanto quanto um desgoverno.
Portanto, como forma de combater a tese de Hannah que origina e corrobora a inação estatal diante desse desfuncional cenário alimentar visto no Brasil, é necessário agir, assim como pontuou Dimenstein, na base para uma sociedade coesa: a educação. Para tanto, o Ministério da Educação, por meio de um projeto educacional nacional, deve incrementar a grade curricular do ensino fundamental – com disciplinas voltadas a discussões e a intervenções nos problemas que podem afetar a comunidade escolar, como a fome e suas motivações-, com a finalidade de desenvolver nas crianças um senso de pertencimento a um corpo social e que podem e devem constantemente melhorá-lo. Assim, espera-se que uma nova geração cresça mais crítica e integrada, construa um Estado mais atuante nos problemas da alimentação das pessoas e, com isso, diminua as cidadanias fictícias.