A questão da fome no Brasil e seus fatores motivadores

Enviada em 26/07/2021

“O Bicho”, poema de Manuel Bandeira, descreve a realidade da fome em território pátrio, ressaltando a desumanização ocorrida ao vê-se sem alternativa diante da ausência de condições mínimas para alimentar-se. Diante disso, coloca-se em pauta, na contemporaneidade nacional, a questão da fome e seus potenciais causadores. Isso posto, cabe a análise da conjuntura social que propicia a perpetuação da problemática, além da observação relativa aos fatores contribuintes.

Em primeiro plano, em consonância com Karl Marx , em sociedades capitalistas, comumente, a organização coletiva é orientada por valores que maximizam a produção de lucro em detrimento ao bem-estar humano. Sob a ótica marxista, estruturalmente, há uma prevalência de estímulo à geração exponencial e ao consumo, acabando por subalternizar pautas relevantes para a manutenção da coesão social — tendo em vista que segundo o índice de Gini, atualmente, o país é o 7° mais desigual do mundo, contando com 52 milhões de pobres, de acordo com o IBGE. Diante disso, observa-se que a macroestrutura que rege o território pátrio promove o distanciamento do homem de seus direitos mais fundamentais, negando-o a dignidade e colocando-o em situação de vulnerabilidade.

Paralelo a isso, essa organização socioeconômica é fundada nas desigualdades, sendo dependente delas para sua manutenção. Nesse sentido, fenômenos como o retorno no Brasil ao Mapa da Fome e o devastador quadro de insegurança alimentar que atingiu 119 milhões de brasileiros durante a Pandemia de Covid-19 (registrados pela revista Veja no ano de 2020) colocam em perspectiva as prioridades do Estado nacional, levando em consideração a Constituição Cidadã de 1988 fixa a alimentação como direito inerente à brasilidade. Isso posto, ressalta-se o rompimento com diretrizes constitucionais e a alienação no que tange à figura estatal na intervenção da problemática — já que, consonante com Thomas Hobbes, é papel do Estado garantir as condições mínimas para sobrevivência dos seus tutelados.

Portanto, é imprescindível o remodelamento estrutural para o combate à fome no Brasil. Assim, cabe ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, em ação intersectorial com o Ministério da Economia, promover nas Universidades Públicas do país — voltando-se aos cursos de Ciências Políticas e Sociais e de Economia— pesquisas quali-quantitativas voltadas ao estudo da estrutura social que cria um ambiente, econômico e social, favorável à persistência dessa mazela civilizacional. A partir dessa ação, tornar-se-á possível a ordenação de políticas públicas, que emergiram do debate especializado promovido por pesquisas acadêmicas responsáveis, apresentando sua contrapartida social efetiva e estimulando o combate, gradual, à fome dos brasileiros.