A questão da fome no Brasil e seus fatores motivadores

Enviada em 03/08/2021

No célebre livro “Vidas Secas”, a morte da cadela chamada “Baleia”, em um contexto desesperador de fome, mostra toda a genialidade de Graciliano Ramos ao emocionar o leitor. No entanto, essa realidade expressa na literatura não é distante da presente, e, infelizmente, é mais lamentável que a morte de um animal ficcional. Por isso, o debate sobre a insegurança alimentar vivida no Brasil é uma urgência humanitária, e a postura do Estado diante das misérias agravadas pela pandemia e dos lobistas precisa ser mudada para proteger o povo brasileiro.

Nesse contexto, o lamentável momento de fragilidade econômica vivido por grande parte da população, na atual pandemia de Covid-19, tem mostrado reveses cada vez maiores. A reportagem que “viralizou” na internet de uma alagoana aposentada aos prantos por conta do aumento de preços da cesta básica é apenas o indício mais explícito da fome no país. Isso pois, a ameaça do Brasil voltar ao “Mapa da Fome” das Nações Unidas, não é mais um exagero da mídia, mas sim um fato vergonhoso para um Estado que foi reconhecido como “Novo Celeiro do Mundo” pela revista “The Economist”. Dessa forma, é impossível permanecer alheio a essa barbárie feita com os sobreviventes do corona vírus em prol de uma elite agrícola.

Por esse viés, o “lobby” agropecuário presente no Brasil, tanto nos ministérios quanto no legislativo, é eficiente para conseguir concessões e vantagens fiscais para os barões do agronegócio. Isso pode ser visto com os créditos multimilionários do BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, oferecidos aos gigantescos produtores de soja e cana-de-açúcar, o que desequilibra a alocação de recursos financeiros, além de distorcer as prioridades de cultivo no país e encarecer alimentos como arroz e feijão. O que, desse modo, não leva a prosperidade aos médios e pequenos agricultores afetados pela instável política pública atual e mantém o ciclo de miséria entre os mais pobres.

Diante desse cenário dramático que surpreenderia até os maiores literários brasileiros, é necessário tratar o combate à fome como prioridade. Para que isso ocorra, o Ministério da Agricultura precisa tornar-se independente da influência de grupos de pressão, por meio de uma troca de cargos de chefia da pasta, além da presença de órgãos de controle, a exemplo da Polícia Federal, com o intuito de não mais favorecer financeiramente uma elite agrária em detrimento do povo. Essa medida, simples porém audaciosa, pode mudar para sempre o combate a fome no Brasil.