A questão da fome no Brasil e seus fatores motivadores
Enviada em 25/08/2021
Gilberto Dimenstein - autor da obra “O Cidadão de Papel” - afirma que os direitos constitucionais são, de forma frequente, aplicados apenas no plano teórico. Com isso, o fenômeno denunciado por Dimenstein assombra o Brasil contemporâneo, uma vez que a fome afeta a vida da população e, consequentemente, rompe com a Constituição de 1988. Logo, é de suma importância analisar os fatores que motivam essa triste realidade: a formação histórica do país e a omissão do Estado.
De início, Gilberto Freyre - expoente historiador -, no livro “Casa-Grande e Senzala”, descreve a gênese do Brasil: país que foi, a partir de 1500, uma colônia de exploração. Acerca disso, é nítido que a ideologia de ceder os lucros para a metrópole, como mencionado por Freyre, está presente, mesmo após centenas de anos, no século XXI e se manifesta através da fome, haja vista que os brasileiros se habituaram a conviver com a inexistência de recursos, posto que tanto o capital quanto os produtos agrícolas foram, historicamente, destinados à exportação. Além disso, é impossível lutar contra a fome, quando as riquezas nacionais não são mantidas no próprio país. Dessa forma, enquanto a mentalidade colonial agir como regra, o acesso a alimentação será, infelizmente, a exceção na Pátria Verde e Amarela.
Ademais, a questão da fome evidencia a omissão do Estado. Nesse viés, José Saramago - autor da obra “Ensaio sobre a Cegueira” - denuncia, através de uma analogia, a principal doença hodierna: a “cegueira” do governo frente às atrocidades sociais. Sob esse prisma analítico, Saramago complementa o pensamento de Gilberto Freyre, posto que a desnutrição não é um obstáculo atual, mas sim um empecilho que atinge centenas de gerações, o que torna claro o cerne do problema: o Estado está “cego” em relação a garantia de alimentação aos cidadãos. Por corolário, não é razoável que o Brasil insista em negar uma nutrição básica aos homens e as mulheres, já que dilacera, diretamente, um dos principais pilares da Constituição Cidadã: o direito à alimentação.
Portanto, para que a fome não esteja presente no cotidiano dos brasileiros, o Estado precisa abandonar a Cegueira de Saramago e investir em projetos sociais, por meio da aplicação de capital e da criação de campanhas humanitárias, a exemplo de doações mensais a regiões debilitadas por todo o país. Essa iniciativa poderia se chamar “Colírio Social” e teria a finalidade de atenuar a questão da fome. Feito isso, a Cidadania de Papel, de Gilberto Dimenstein, deixará de ser, em breve, uma realidade no contexto atual.