A questão da fome no Brasil e seus fatores motivadores
Enviada em 11/10/2021
O escritor Gilberto Dimenstein, em sua obra “O cidadão de papel”, analisa a cidadania no Brasil e contesta a maneira como os indivíduos têm acesso às leis no país. Nesse sentido, a narrativa revela que a maioria dos direitos garantidos na Constituição Brasileira ficam apenas no plano teórico e não passam para o campo prático, criando uma sociedade de cidadãos de papel. Tal fato é evidenciado na questão da fome no país, visto que apesar dos brasileiros possuírem o acesso à alimentação adequada como direito constitucional, a exportação em massa de commodities e a banalização da insegurança alimentar fazem com que a cidadania não seja garantida para todos.
Em primeiro lugar, faz-se necessário destacar que o alto índice de exportação de commodities, realizado historicamente nas terras tupiniquins, desencadeia na má distribuição de gêneros alimentícios para a população. Durante o período de colonização, o território brasileiro exportou uma grande quantidade de produtos para a Coroa Portuguesa, a fim de garantir que as atividades econômicas coloniais gerassem lucro para a metrópole. Entretanto, mesmo que hoje o Brasil seja independente de sua antiga metrópole, a maior parte da produção agrícola ainda visa o mercado internacional, o que prejudica a distribuição de alimentos no país e gerou a insegurança alimentar grave de 10 milhões de brasileiros no ano de 2020, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Além disso, outro fator contribuinte para o avanço da fome no território brasileiro é a banalização dessa problemática por parte da sociedade. Dessa forma, na contemporaneidade, verifica-se o que a filósofa Hannah Arendt propôs como banalidade do mal: fenômeno da recusa do caráter humano, alicerçado na negativa da reflexão e na tendência em não assumir a iniciativa própria de seus atos. Logo, os indivíduos com alto poder aquisitivo não compreendem a urgência presente no combate à fome no país, posto que, por viverem em uma situação de segurança alimentar, não realizam o exercício da reflexão, se tornando incapazes de fazer julgamentos morais e contribuindo para o aumento dessa maleza social.
Portanto, é mister que o Estado tome providências para amenizar o quadro atual e diminuir a fome no Brasil. Com isso, urge que o Governo Federal, juntamente com o Poder Legislativo, através da criação de leis, estabeleça um percentual de alimentos destinado ao comércio exterior, com o objetivo de que mais alimentos cheguem às mesas dos brasileiros em decorrência da melhor distribuição e maior circulação interna de produtos. Somente assim, o povo tupiniquim se distanciará da realidade descrita por Dimenstein e deixará de ter uma cidadania “de papel”.