A questão da xenofobia no Brasil

Enviada em 17/10/2018

“Pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto”. A imortalizada frase de Novos Baianos, grupo de Música Popular Brasileira, embalsama os ideais que configuram o contato entre diferentes culturas: o intercâmbio de valores e conhecimentos que engrandecem, mutuamente, os indivíduos envolvidos. Todavia, a xenofobia impede tal processo à medida que o indivíduo sente-se ameaçado pela cultura do estrangeiro e passa a rejeitá-lo. Nesse prisma, torna-se imprescindível a discussão acerca dos fatores corroborantes a essa situação.

Em primeiro plano, é coerente associar a xenofobia no Brasil com a indevida aplicação constitucional. A Carta Magna de 1988 repudia a discriminação e a segregação de qualquer natureza. Todavia, as políticas governamentais não alcançam os fins estipulados pela Constituição, uma vez que discursos de ódio e comportamentos agressivos contra estrangeiros são fortemente visíveis e diluem direitos individuais imprescindíveis para a dignidade humana. Tal conjuntura, consoante a Jhon Locke, configura-se uma violação do “contrato social”, dado que o Estado pouco promove ações que destituam esse irracional preconceito e tampouco atua eficientemente na punição dos agressores. Desse modo, desde 2015, as denúncias de xenofobia cresceram em 633%, segundo o jornal “O Globo”, evidenciando os direitos restringidos ao papel.

Ademais, o problema também se deve a fatores históricos enraizados no solo brasileiro. Na Revolta de Malês na Bahia de 1835, os africanos e muçulmanos já reagiam à desconsideração com suas culturas e à discriminação por serem negros e seguidores do islamismo. Dessa forma, o infundado sentimento de superioridade frente à cultura do estrangeiro perpetuou-se no Brasil contemporâneo e resultou no atual cenário de xenofobia que, diariamente, fere, moral e fisicamente, pessoas já fragilizadas pela saída de seus países de origem. Assim, lamentavelmente, a diluição dessa intolerância é reduzida, já que ela é fruto de uma herança perversa, a qual negligenciava distintos aspectos culturais

Portanto, a fim de amenizar esse cenário, é necessário que as responsabilidades sejam partilhadas entre Poder Público e escolas. Estas, como instituições formadoras de valores, devem promover palestras aos pais e alunos que discutam a irracionalidade da aversão ao estrangeiro e desenvolvam noções de respeito e de tolerância à cultura alheia. Desse modo, a nova geração será protagonista na erradicação da xenofobia enraizada no país. Além disso, cabe ao Estado criar delegacias especializadas nesse tipo de crime, para que as vítimas de xenofobia sintam-se acolhidas para denunciar situações de rejeição, além de agilizar os processos e as devidas punições. Assim, será possível diluir o problema e garantir o crescimento mútuo dos indivíduos pelo intercâmbio de culturas.