A questão da xenofobia no Brasil

Enviada em 16/05/2020

Um indivíduo em desespero, ao passo que, em seu entorno, personagens mostram-se apáticos a esse sofrimento. Essas são as características retratadas no quadro “O grito”, do pintor Edvard Munch. No entanto, percebe-se que essa indiferença frente aos problemas alheios não se limita à obra expressionista, posto que, no Brasil, as vítimas de xenofobia têm sido negligenciadas por determinados setores da sociedade. Diante disso, cabe analisar essa questão no país.

De início, pontua-se que o Poder Público revela-se omisso ao não combater a xenofobia. Isso porque ocorre uma deficiência no processo de conscientização, uma vez que falta estimular a população ao conhecimento acerca das diferenças culturais que integram as comunidades, o que tem favorecido a disseminação de discursos intolerantes e etnocêntricos, os quais não só desrespeitam a identidade daquele que é alvo, mas também violam a sua integridade moral. Dessa forma, vê-se que o Estado não tem assegurado o bem-estar de toda a coletividade, demonstrando um desrespeito à consolidação dos princípios previstos na Constituição Federal de 1988.

Ademais, enfatiza-se que aceitar a falta de combate à xenofobia é banalizar o mal. Porém, parte da sociedade tem apresentado uma certa resignação diante do baixo investimento financeiro na segurança pública, visto que verbas suficientes não têm sido disponibilizadas para a criação de canais virtuais de denúncias contra atos xenófobos, bem como para a ampliação da capacidade da polícia civil de investigação desses casos, comprometendo, assim, a assistência jurídica às vítimas. A naturalização dessa problemática pode ser explicada através dos estudos da filósofa Hannah Arendt, posto que, segundo ela, em virtude de um processo de massificação social, as pessoas têm perdido a capacidade de distinguir o que é ou não aceitável.

Infere-se, portanto, que a xenofobia deve ser combatida. Logo, é necessário que o Estado promova, mediante a realização de palestras e debates nos centros educacionais, a conscientização acerca das diferenças culturais entre os indivíduos, priorizando o respeito dessas, com o intuito de reduzir a manifestação de discursos discriminatórios contra a identidade do próximo. Também, é fundamental que haja a atuação dos veículos midiáticos, por meio da criação de reportagens que exponham a relação entre a xenofobia e a precariedade da segurança pública, para desenvolver o senso crítico das pessoas e mobilizá-las a lutarem por um maior repasse de verbas para a defesa civil, a fim de possibilitar a criação de canais eficientes e de fácil acesso para a realização de denúncias e, ainda, ampliar o seu efetivo profissional para acelerar as investigações dessas, efetivando, com isso, a assistência às vítimas. Dessa forma, a negligência social poderia ficar restrita à obra de Munch.