A questão da xenofobia no Brasil
Enviada em 07/05/2021
O mito do Brasil Cordial
Na obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, o personagem Fabiano é um homem do sertão que possui baixa escolaridade e dificuldade de falar formalmente, motivo que instiga o preconceito de seu patrão, morador da cidade, que faz disso um motivo para manipular Fabiano. Embora seja uma ficção, a realidade é que isso é unicamente um recorte daquilo que é a vivência diária dos nordestinos, haja vista que os mesmos sofrem não apenas preconceito linguístico mas também xenofobia pelo fato de pertencerem à região Nordeste. Sendo assim, faz-se necessária a análise e a resolução desses obstáculos para o fim da discriminação contra os moradores desta região.
Em primeiro lugar, cabe ressaltar o contexto histórico do Brasil, que durante sua industrialização, no século XX, o Sudeste foi destino de muitos do Nordeste, tendo em vista a oferta de empregos - de maior parte braçais e mais pesados. Como esses trabalhadores ocupavam os considerados subempregos e carregavam consigo sua identidade regional e linguística, criou-se uma ideia de que eles eram inferiores e menos qualificados, reforçando a xenofobia e o preconceito linguístico. Deste modo, a percepção Sérgio Buarque de Holanda sobre o brasileiro ser cordial pode ser considerada um mito, levando em conta como muitos enxergam os nordestinos com indiferença, mesmo sendo todos da mesma nação.
Além disso, a estereotipização de características físicas e culturais contribuem para o aumento do preconceito, como quando o presidente Jair Bolsonaro disse que só faltava crescer um pouco de sua cabeça, em visita à Bahia, se referindo ao fato de ter ido algumas vezes ao Nordeste. Tal fala, proveniente de uma personalidade com influência político-social em território nacional apenas reforça uma ideia equivocada de que o nordestino tem a “cabeça grande”, além de estimular a xenofobia. Tendo em vista a impunidade após esse discurso, é visível a omissão por parte do Estado quando se trata de punir aqueles que são explicitamente xenofóbicos, contrariando o princípio da isonomia, que diz que todos são iguais perante a lei, que é garantido pelo artigo 5 da Constituição Federal.
Diante dessa situação, que atinge grande parcela da população brasileira, são necessárias medidas que contribuam para a redução da xenofobia contra nordestinos. O Governo Federal deve investir no Ministério da Educação, para a criação de projetos como palestras e oficinas, a fim de combater esse preconceito, abrangendo desde o Ensino Básico ao Médio. Além disso, é necessária uma participação efetiva por parte dos Três Poderes, com a criação de departamentos especializados no crime da xenofobia e aplicação de leis mais rígidas, visando a punição correta. Por fim, com a ação conjunta de todos os citados, em médio e longo prazo, a cordialidade do brasileiro deixará de ser um mito.