A questão do aborto no Brasil
Enviada em 15/10/2018
A legalização do aborto, no Brasil, encontra uma série de empecilhos. Tal constatação pode ser comprovada por meio de dados divulgados pela Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), os quais demonstram que aproximadamente 400 mil mulheres nas áreas urbanas do país interromperam a gravidez. Nesse contexto, evidencia-se a consolidação de um problema de contornos específicos, em virtude de questões socioculturais e a falta de empatia da pós-modernidade.
Deve-se pontuar, de início, que a lenta mudança da mentalidade social caracteriza-se como um complexo dificultador. Conforme Durkheim, o fato social é a maneira coletiva de se pensar. Sob essa lógica, é possível perceber que a questão da criminalização do aborto é fortemente influenciada pelo pensamento coletivo, uma vez que, se as pessoas crescem inseridas em um contexto social machista, o qual vê com maus olhos as mulheres que, por exemplo, engravidam fora do casamento, a tendência é adotar esse comportamento também, assim, o que dificulta a aceitação da legalização do aborto no país.
Outro ponto relevante, nessa temática, é a liquidez dos tempos pós-modernos. Na obra “Modernidade Líquida”, Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, defende que os tempos modernos são caracterizados pela individualismo e pelo egocentismo. A tese de Bauman pode ser enxergada na sociedade brasileira, no que tange à questão do aborto, já que, muitas pessoas que apoiam sua criminalização, não se importam com o fato de mulheres, em grande parte, negras e pobres morrem em decorrência de métodos de aborto ilegais. Essa falta de empatia que influi sobre essa questão funciona como um forte empecilho para sua legalização.
Torna imperativo, portanto, que, de modo urgente, medidas sejam tomadas. Em razão disso, é necessário que as prefeituras, em parceria com o governo do estado, proporcionem a criação de oficinas educativas, a serem desenvolvidas nas semanas culturais dos colégios estaduais. Esses eventos podem ser organizados por meio de atividades práticas, como dramatizações e dinâmicas, de modo a proporcionar visualização do assunto, além de palestras de sociólogos que orientem a questão do aborto para os jovens e suas famílias, com embasamento científico, a fim de efetivar a elucidação da população sobre o tema. Por fim, é preciso que a comunidade brasileira olhe para a problemática com mais empatia, pois, como descreveu o poeta Leminski: “Em mim, eu vejo o outro”.