A questão do aborto no Brasil

Enviada em 28/10/2018

Frida Kahlo, renomada pintora surrealista, protagoniza sua tela, “Hospital Henry Ford”, ligada à um feto, no meio extracorpóreo, pelo cordão umbilical, em um cenário caótico, onde sua dor, explicada por inúmeros abortos sofridos, ecoa sobre os traços. Tal obra, causa sensação de “déjà vu” ao refletir sobre a questão do aborto no cenário brasileiro hodierno, pois o sofrimento ali retratado é o mesmo que assola milhares de brasileiras, que em condição de solidão, enfrentam um processo doloroso de escolha ou imposição, que contraria seus próprios hormônios maternos, ao mesmo tempo em que são estigmatizadas pela sociedade. Diante disso, emergem como principais desafios desse roteiro a escassez de profissionais capacitados para lidar com o assunto de forma imparcial e acolhedora, além da monopolização do discurso pró-vida por aqueles que são críticos ao abortamento.

Precipuamente, o monopólio do termo “pró-vida”, por campanhas contrárias, faz com que o aborto seja visto como algo diametralmente oposto. De acordo com o filósofo moderno Immanuel Kant, o esclarecimento é a saída da menoridade -condição de heteronomia, subordinação à conhecimentos impostos. Similarmente, no que tange o móvito, as inexpressivas campanhas favoráveis não são capazes de reeducar o pensamento social, cheio de teses e achismos, sem qualquer fundamento científico, que ignoram o fato de que o combate à abortos ilegais, através da legalização, é uma forma de salvar vidas (evitando que mais mulheres morram na clandestinidade) e não de ceifá-las.

Outrossim, a falta de profissionais, desde a esfera da segurança até a saúde, não militantes em prol de causas e crenças próprias, emergem como principais constrangimentos para a mulher nesse processo. Segundo Fernanda Jota, coordenadora do Programa de Interrupção Gestacional-PIGL-, ao citar casos, como os de gravidez causada por estupro, atendidos legalmente no Brasil, explicou que, muitas vezes, a vítima é constrangida ao realizar os procedimentos necessários para a conclusão do abortamento. Isso acontece nas delegacias, com opiniões preconceituosas, ou até mesmo em hospitais, onde médicos, em muitos casos, alegam objeção de consciência, dessa forma, levando a um desarranjo emocional na mulher e dificultando a criação de equipes de profissionais que trabalhem nessa causa.

Diante do exposto, é improtelável que haja um trabalho para sensibilização popular à respeito do móvito, mostrando que ele não é desejável, entretanto, em alguns casos, é necessário. Dessarte, urge que o ensino em universidades se adeque à essa realidade, para isso, o Ministério da Educação deve atuar para a criação de um curso para que estudantes de medicina  aprendam como agir e encaminhar casos de mulheres que cogitem o aborto e precisem passar por uma triagem para provar que o seu caso está dentro da legalidade atualmente permitida, evitando, assim, o sofrimento da mulher.