A questão do aborto no Brasil
Enviada em 27/04/2019
Se para François Mauriac, escritor francês, separar a liberdade da justiça constitui um pecado social por excelência, para a sociedade brasileira contemporânea tal ideal não poderia ser diferente. Sob esse viés, evidencia-se que a questão do aborto no Brasil reflete o catastrófico cenário da saúde pública no país, questão que relacionada tanto a valores morais, quanto à interferência política, representa uma afronta à dignidade feminina. Com efeito, torna-se fundamental debater os impactos e consequências desse quadro a fim de modificar essa realidade.
Em primeira análise, é indubitável que dogmas religiosos constituem um dos principais empecilhos à legalização do processo. Segundo a perspectiva do sociólogo Gilberto Freyre, na obra “Casa Grande e Senzala”, a construção do caráter brasileiro foi moldado, ao longo dos séculos, conforme os valores religiosos coloniais. Nesse sentido, em decorrência de inúmeros debates congênitos, ao menos duas mil mulheres são vítimas de clínicas clandestinas e insalubres, a cada ano, tal qual constam os dados fornecidos pelo jornal Correio Braziliense.
Outrossim, vale ressaltar que, esse problema é agravado, ainda, por fatores político-estruturais. Visto que, em uma nação de mínima presença feminina na diplomacia, a supremacia masculina na política retarda qualquer tipo de desenvolvimento democrático via legalista. Seguindo essa linha de pensamento, é evidente que, mesmo após trinta anos da criação da Magna Carta de 1988, a criminalização do aborto não diminui sua prática. Paralelamente à continuidade do exercício, o desenvolvimento de condições de assistência às mulheres é quase inexistente, as quais são expostas a risco de morte e toda sorte de infecções, diariamente, situação que além de contrariar o artigo V da Constituição, fere o princípio da dignidade humana.
Considerando os aspectos mencionados, torna-se claro, portanto, a necessidade de medidas para combater a situação. Dessa maneira, cabe às cátedras universitárias, junto a especialistas, buscar o apoio da população através de debates, seminários e palestras em colégios e universidades, para que orientem as mulheres quanto ao uso de preservativos em relações sexuais e que desmistifiquem preconceitos que envolvam a gravidez, de acordo com a ótica da sociologia e da saúde. Com isso, é fundamental que corporações femininas, junto a órgãos da saúde e médicos, reivindiquem e pressionem o Supremo Tribunal Federal, sob via legal de descriminalização, acompanhado da liberação de clínicas e concessões aos profissionais da saúde. Apenas sob tal condição, a plena garantia de direitos e a formalização de uma estrutura ideal de desenvolvimento gestativo serão obtidas.