A questão do aborto no Brasil

Enviada em 17/08/2019

‘‘Hospital Henry Ford’’ é uma obra da renomada pintora surrealista Frida Kahlo que retrata um cenário pós-aborto, no qual a mãe aparece ainda ligada, pelo cordão umbilical, ao filho. Tal obra exterioriza, através de um enredo impactante, a dor causada pela aborção, a qual pode tornar-se ainda mais desumana e traumatizante na sociedade brasileira, cujos valores morais e religiosos suplantam a racionalidade. Levando a alguns casos, que não se encaixam aos moldes criados, à clandestinidade.  Diante disso, emergem como principais agentes acentuadores dessa problemática as raízes históricas, bem como a invisibilidade da questão social no que tange o aborto.                                                              Precipuamente, é preciso observar que o Brasil é um país erguido sobre o catolicismo e historicamente atrasado. Nesse sentido, a série televisiva Sex Education causou estranheza ao escancarar essa discrepância histórica e cultural.m. O seriado retratou, com naturalidade, a realização de uma aborção em uma clínica especializada, haja vista que no País de Gales, onde a série é gravada, o aborto é legal desde 1967. Outrossim, esse contexto, de desconforto do telespectador, revela que o Brasil é uma nação acorrentada às regras coloniais e à religião e utiliza tais preceitos para ‘‘idiotizar’’ a assertiva do aborto, taxando esse como desumano, além de criminalizá-lo, levando à ilegalidade.                                                                                                                                                         Ademais, a proibição do aborto não pode ser vista apenas como um problema legislativo, pois ela é, sobretudo, uma questão de desigualdade social. Atrela-se ao exposto, o artigo 1º da Constituição Federal que garante, como direito fundamental, a dignidade. Todavia, a teoria é dilacerada no cotidiano social ao refletir sobre a questão da amblose, que é criminalizada pelo código penal. Dessa forma, a ilegalidade seleciona a classe social menos favorecida à condição de indignidade ao excluir de suas vidas a presença de um planejamento familiar e a falta de recursos para realização de um abortamento que não seja danoso à saúde física ou psicológica.                                                                                         Urge, portanto, que a problemática do aborto seja tratada com responsabilidade pragmática. Logo, faz-se necessária a atuação do Ministério da Saúde nas trincheiras da ignorância. Uma  campanha, em parceria com o Ministério da Educação, seria de grande ajuda para a criação de programas elucidativos, explicando o móvito e sua necessidade para algumas mulheres, e para a evolução do entendimento da sociedade sobre a liberdade da mulher. Dessarte, a implantação da idéia de um planejamento familiar deve ser posta em prática, assim como o aumento do número de aulas sobre educação sexual, em parceria com agentes de saúde. Para que, assim, possa surgir uma geração instruída e capaz de aprovar, futuramente, medidas tão progressistas que resolvam tal impasse.