A questão do aborto no Brasil

Enviada em 22/08/2021

Durkheim defendia que a sociedade prevalece coercitivamente sobre o indivíduo. Nessa perspectiva, um histórico de formação da identidade nacional baseada na lógica colonial, ampliado pelo processo contemporâneo de manipulação da opinião pública, construiu um cenário em que há uma alarmante distorção direcionada relacionada à abordagem frente ao aborto no Brasil que, consequentemente, prevalece crenças pessoais sobre o direito de escolha. Assim, destacando um relevante debate referente à necessidade de descontruir ideologias e posturas primitivas.

Em primeiro lugar, cabe destacar o estigma social atinente à gênese da sociedade brasileira. O processo de colonização do Brasil foi financiado pela Igreja Católica na busca por novos fiéis. Esse processo aconteceu mediante à imposição da crença europeia sobre a local. Assim, a sociedade brasileira foi concebida baseada nos princípios católicos, em que há a crença absoluta do direito divino à vida a partir do primeiro dia de concepção. Como resultado, a cultura nacional estruturou-se condenando o aborto. Desse modo, em paralelo ao estudo Durkheimiano, é evidente que essa situação apresenta uma conotação histórica premeditada, marcada pelo imperativo de leis invisíveis.

Ademais, deve-se considerar o impacto da manipulação em massa na sociedade contemporânea. Oxford elegeu “pós-verdade” como a palavra do ano de 2016. Esse termo refere-se às circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos relevância em moldar a opinião pública, comparado a crenças pessoais. Nesse contexto, as notícias falsas têm forte poder de persuasão de defesas pessoais e ideologias, salientando em relação a criminalização do aborto. As redes socias proporcionam o espaço ideal para essa estratégia, tal como a distorção de procedimentos de aborto, fotos adulteradas e textos com relatos inverídicos, que refletem táticas de ciclos intencionais direcionados. Logo, corroborando com a perpetuação de lógicas que, ao destacarem visões individuais, opõe-se ao progresso coletivo.

Torna-se evidente, portanto, que os caminhos para descriminalização do aborto no Brasil apresentam entraves que devem ser combatidos. Nesse sentido, deve-se investir no combate as ”fake news” e na potencialização de informações concretas. Para tal, o Ministério da Educação, órgão responsável pela gestão de todo aparato educacional, deve implementar nas escolas o estudo de educação sexual, em que o estudante seja informado imparcialmente dos processos relacionados ao aborto, por meio da análise de dados estatísticos, métodos, abordagens e relatos. Dessa forma, buscando romper noções estigmatizadas, decorrentes de adulterações direcionadas de informações, fortalecendo o caminho para o direito de escolha e uma geração com uma visão crítica.