A questão do aborto no Brasil
Enviada em 26/10/2021
A questão do aborto no Brasil, e sua criminalização, afronta não somente a dignidade feminina, mas também o profundo debate da saúde pública no país. Nesse sentido, afere-se que tal panorama reflete um cenário catastrófico, seja pela persistência de valores éticos e morais sobre a questão, seja por intempéries políticas-estruturais da faceta nacional.
A princípio, é possível perceber que tais circunstâncias devem-se à persistência de valores socioculturais. Gilberto Freire, excepcional sociólogo brasileiro, em Casa-Grande e Senzala repassa a percepção de que o caráter do povo decorre de valores assimilados pelo período colonial. Sob tal concepção, é indubitável que inúmeros dogmas religiosos disseminados constituem um dos principais empecilhos na evolução do processo do aborto, pois enquanto insistem no debate congênito, milhares de mulheres continuam a morrer todos os anos vítimas de clínicas clandestinas, sobretudo as pobres. Além disso, a supremacia masculina dentro da faceta política nacional retarda qualquer tipo de desenvolvimento democrático via legalista de descriminalização. Especialistas da Universidade de Brasília indicam que uma em cada cinco mulheres brasileiras terá realizado o aborto até os 40 anos. Entretanto, embora haja continuidade do exercício, o desenvolvimento de condições adequadas às mulheres não existe, sendo estas submetidas a riscos de morte e de infecção. Dessa forma, depreende-se que, apesar das condições insalubres, a prática persistir, e a sua descriminalização apenas há de garantir a qualidade obstetrícia.
Torna-se imperativo, por conseguinte, que cátedras universitárias, junto às especialistas, busquem apoio da população através de debates, seminários e palestras em colégios e universidades, desmistificando preconceitos sobre o tema e informando as consequências, dentro da visão irrestrita da sociologia, de saúde pública às mulheres.