A questão do analfabetismo digital no Brasil

Enviada em 08/01/2021

No livro"Laranja Mecânicaássica distopia de Anthony Burgess, o autor  relata, no prefácio, a situação de estranhamento e exclusão com que recebeu as gírias dos jovens ingleses à sua época -fator que, inclusive, fez questão de fazer notar no livro, em que os personagens gozam de um vocabulário próprio e estranho ao leitor. Analogamente, o analfabetismo digital também provoca uma sensação de exclusão para com os que se encontram vulneráveis à imensidão de pretensões no meio virtual e, sobretudo, àqueles desprovidos do privilégio de acesso a esses recursos.

Em uma perspectiva inicial, é necessário observar o vertiginoso volume de informações contido no espaço virtual: redes sociais, fóruns de opinião, enciclopédias de pesquisa, vídeos, entre outras fontes. Nesse prisma, é compreensível a vulnerabilidade do internauta sob tamanha influência. Contudo, tal qual retratado no livro “A revolução dos Bichos”, de Orwell, em que os animais “mais inteligentes” utilizam-se da ignorância dos demais para fortalecer suas causas, um indivíduo desavisado sofre risco de manipulação e, no contexto digital, isso implica em perdas como roubo de dados, apoio inadvertido a discursos de ódio e exposição gratuita. Assim, infelizmente, a susceptibilidade é causa, consequência e ônus do analfabetismo digital no país.

Outrossim, é preciso ressaltar que, apesar da aparente popularidade, o acesso ao meio virtual ainda é um privilégio. De acordo com uma pesquisa divulgada ainda em 2020 pelo G1, cerca de 30% dos brasileiros não têm acesso à internet. Sumariamente, a questão do analfabetismo é também um problema social que denuncia a desigual conquista desse ambiente. Nesse sentido, em consonância com o pensamento do filósofo alemão Jurgen Habermas, a inclusão e o amparo são, de fato, prerrogativas para um convívio social justo, harmonioso e ativo contra o analfabetismo digital.

Dessa maneira, esse tipo de impedimento atinge desde os suscetíveis às intenções informacionais, até os desprovidos do acesso a elas. Portanto, cabe ao Ministério da Saúde, em parceria com o Governo Federal, a partir da disponibilização de aparelhos (tablets e computadores) com acesso à internet em bibliotecas públicas para locação diária e gratuita nesses espaços, além do envio bimestral de informativos via correio digital e físico como guias educativos de orientação em meio digital, fornecer tanto o contato, como a instrução para a navegação virtual. Assim, finalmente, essa versão de analfabetismo poderá ser efetivamente combatida no Brasil.