A questão do analfabetismo digital no Brasil

Enviada em 11/01/2021

No filme “Eu, Daniel Blake”, é retratado a história de um carpinteiro que após sofrer um ataque cardíaco, passa a depender das burocráticas ações do Estado. Ao longo da trama, Daniel procura a previdência social para a concessão de um benefício em razão de sua invalidez, que logo no início é negado. Para fazer o pedido de reconsideração ele precisa preencher um formulário digital, e sem saber usar a internet, diz, “Eu posso consertar tudo, menos um computador”. Fora da ficção, é fato que a realidade retratada no filme se assemelha ao Brasil, visto que, muitas vezes os cidadãos são privados do acesso à internet ou não sabem usá-la corretamente. Esse problema ocorre, principalmente, devido à dificuldade de acesso e ao despreparo no uso dessa tecnologia.

Em primeiro lugar, vale retomar que o intenso processo de urbanização desfavoreceu economicamente as regiões Norte e Nordeste do país. Conforme dados de um pesquisa divulgada pelo IBGE, o percentual de pessoas com acesso à internet no Brasil se manteve em 34,3% na região Norte e 30,2% na região Nordeste, enquanto a região Sudeste ficou com uma taxa de 48,1%. Diante disso, vê-se que essa problemática prejudica o desenvolvimento econômico e intelectual do país, já que, como afirmou Steve Jobs, “A tecnologia move o mundo”.

Ademais, a falta de preparo no uso da internet é um dos principais problemas enfrentados pelos que não têm acesso à rede. De acordo com o relatório anual The Inclusive Internet Index 2019, no quesito de alfabetização digital, o Brasil ficou na 66ª posição, uma estatística preocupante, visto que a sociedade está cada vez mais dependente das tecnologias. Além disso, segundo a The Economist o país ficou em 4º lugar no ranking de confiança das informações compartilhadas nas redes socias. Nesse âmbito, tal fato é análogo à “menoridade intelectual”, proposta por Kant, já que a sociedade se torna refém do uso inadequado das tecnologias. Assim, é fundamental a educação tecnológica desde o período escolar, para que os cidadãos possam desfrutar corretamente os benefícios que a internet proporciona.

Portanto, medidas devem ser efetivadas a fim de atenuar os impactos causados pelo analfabetismo digital no Brasil. Para isso, cabe ao Ministério da Educação, por meio de verbas governamentais, o dever de incluir as populações restritas ao acesso à internet, além de implementar uma disciplina de “educação tecnológica” nas escolas - haja visto que as crianças da “Geração Z” já nascem inseridas nesse meio -, com o intuito de garantir a adequação à essa esfera, para que, posteriormente, esses indivíduos possam usufruir corretamente das tecnologias oferecidas pelo século XXI, além de que, ao contrário de Daniel Blake, possam “consertar tudo, principalmente, um computador”.