A questão do analfabetismo digital no Brasil

Enviada em 11/01/2021

A obra literária “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, ilustra uma sociedade separada em classes: aqueles que sabiam ler controlavam os analfabetos. No meio digital, casos de “fake news” e de crimes cibernéticos são consequências da problemática descrita por Orwell. Nesse sentido, para a resolução da questão do analfabetismo digital, dois aspectos são relevantes: políticas públicas e desigualdade social.

A princípio, é evidente a omissão do Estado em ações que visam facilitar a educação digital da população brasileira. Por exemplo, na Austrália, o ensino de TI - Tecnologia da Informação já faz parte da grade curricular de crianças e adolescentes, inclusive com a obrigatoriedade do ensino de programação para crianças com mais de dez anos. Essa medida, portanto, é essencial para que os australianos sejam capazes da utilização correta das tecnologias comunicativas atuais e, assim, sejam menos propensos a serem vítimas de “fakes news” e de crimes cibernéticos. Todavia, isso, infelizmente, não é realidade no Brasil. Essa conjuntura, segundo o filósofo contratualista John Locke, configura-se como uma violação do “contrato social”, já que o governo não garante que os cidadãos desfrutem do direito à educação, garantido na Constituição Federal de 1988 — documento jurídico mais importante do país —.

Ademais, é fundamental apontar a desigualdade social como impulsionadora desse problema, posto que o acesso à informação e à educação tecnológica é restrito para uma parcela da população. Essa situação tem como causa, principalmente, o período colonial no Brasil, com o incentivo da metrópole em atividades econômicas responsáveis por latifúndios e que utilizavam trabalho escravo. Sob esse viés, no livro “Pedagogia do Oprimido”, o educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, defende que a educação é libertadora, bem como capaz de oferecer novas perspectivas aos indivíduos marginalizados. Com efeito, a inclusão dessas pessoas no meio digital é muito importante para que oportunidades de ensino e de trabalho sejam criadas, permitindo, então, a ascensão social das classes mais desfavorecidas da população.

Enfim, é evidente a necessidade de medidas para reverter essa situação. Dessa forma o Ministério da Educação deve facilitar o ensino digital, por meio da inclusão de disciplinas de TI na grade curricular do ensino básico e fundamental, com a capacitação de escolas e profissionais de educação. Essa iniciativa poderia se chamar “Aprendendo a Ler e Digitar” e teria finalidade diminuir o analfabetismo digital no Brasil. Dessa maneira, teremos uma sociedade em que Estado cumpre o seu “contrato social”, tal como afirma John Locke.