A questão do analfabetismo digital no Brasil
Enviada em 12/01/2021
No mito da caverna, o filósofo Platão descreve a situação de pessoas que se recusam a observar a verdade por medo de saírem de sua zona de conforto. Fora da alusão, a realidade brasileira caracteriza-se com a mesma problemática no que diz respeito à questão do analfabetismo digital. Nesse viés, percebe-se a configuração de um grave empecilho, em virtude da escassa atuação governamental e do pensamento da sociedade.
É fulcral pontuar, inicialmente, que os aspectos governamentais fazem o problema perdurar. Diante disso, o economista Manoel Pires mostrou que os níveis de investimento no setor público do Brasil estão em queda desde o final dos anos 1970, o que comprova os traços de estagnação do governo do país. Isso se dá porque, hodiernamente, poucos recursos são destinados à formação digital no ambiente escolar, principalmente nas escolas públicas, cuja presença de computadores é inferior quando comparada às escolas particulares, consoante o Plano Nacional de Educação (PNE), o que impede a acessibilidade da alfabetização para todos, além de contrapor o direito à educação, garantido pela Constituição Federal de 1988. Nesse âmbito, essa negligência resulta na persistência do entrave.
Outrossim, evidencia-se a mentalidade social como um dos agravantes do imbróglio. Segundo o filósofo Schopenhauer, os limites do campo de visão de uma pessoa determinam o seu entendimento a respeito do mundo. Isso justifica outra causa do tema: se a sociedade continuar estipulando um limite de idade para começar a se alfabetizar digitalmente, os idosos, grupo que compõe a maior parcela analfabeta no Brasil, conforme pesquisas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vão continuar sentindo-se incapazes e desatualizados, além de corroborar o aumento de crimes virtuais, haja vista que eles não são instruídos sobre os perigos que o meio digital pode acarretar. Consequentemente, os não alfabetizados ficam à margem da sociedade, à medida que os acessos aos bens culturais, à informação e ao trabalho são limitados, posto que esses seres são vistos como inferiores. Desse modo, é imprescindível uma transfiguração nessa realidade.
Torna-se evidente, portanto, que informação é mister para mitigar o avanço do impasse. Logo, cabe ao Governo Federal, instância máxima de poder, por meio dos royalties de petróleo, criar uma série de vídeos para a mídia televisiva e para a plataforma Youtube. Nesse sentido, a ação será mediante curtas animações com o intuito de instruir o público dessas mídias sobre os perigos do meio digital, além da divulgação dos locais que fornecem aulas de informática gratuitas, a fim de que o número de alfabetizados digitalmente no Brasil cresça. Assim, o tecido social irá se desprender da realidade das sombras, como na alegoria da caverna de Platão.