A questão do analfabetismo digital no Brasil
Enviada em 12/01/2021
No filme “Central do Brasil”, a atriz Fernanda Montenegro interpreta a personagem Dora, uma ex-professora amargurada que escreve cartas para pessoas analfabetas como forma de sustento. Contudo, no decorrer do longa, é visto que essa mazela assola locais muito além da região carioca. Fora das telas, a questão do analfabetismo digital também se comporta como entrave na contemporaneidade brasileira. Nesse sentido, percebe-se não só a configuração de um grave problema, mas também convém ressaltar as causas que perpassam tanto o âmbito da imperícia estatal, quanto empresarial.
Nessa direção, é importante destacar, a priori, que a falha do Poder Executivo em assegurar a inclusão digital impacta diretamente na qualidade de vida dos cidadãos. Acerca disso, o Estado, como bem afirmou o economista britânico John Maynard Keynes, deve garantir o bem-estar social e – inclusive – o direito ao acesso às tecnologias (como prever no Artigo 5° da Constituição). Entretanto, isso não se aplica ao atual cenário brasileiro, uma vez que a população da terceira idade, por exemplo, não vê assistida suas limitações virtuais e, por conseguinte, sofre por não conseguir realizar compras na “web”, além de, em muitos casos, serem lesadas ou roubadas.
Ademais, as grandes instituições estão entre os entraves que impedem a resolução da problemática. Prova disso, o documentário da Netflix, “Dilema das Redes”, produzido por ex-funcionários de empresas como Google e Facebook, mostrou que as plataformas de pesquisas e compras visam, em primeiro plano, o lucro em detrimento da experiência dos usuários. Dessa maneira, o não conhecimento dos mecanismos de controle – como os algoritmos- e a falta de domínio dos aparelhos, apresentam-se benéfico para as multinacionais e, consequentemente, acirra o quadro de analfabetismo tecnológico.
Infere-se, portanto, que providências sejam tomadas para atenuar o desconhecimento digital no Brasil. Dessa forma, compete à Federação, em parceria com a iniciativa privada, criar o projeto “Educação Tecnológica”, por meio da destinação de verbas públicas para levar às escolas computadores com acesso à internet. Para mais, eles deverão ficar em uma sala à disposição da sociedade com auxílio de um profissional do ramo, com objetivo de sanar as dúvidas da população e ajudar com as compras no meio virtual. Assim, será possível não só fazer jus às teorias Keynesianas, mas também, gradativamente, promover uma cidadania legítima e plural para crianças como o “Josué” da Central do Brasil.