A questão do analfabetismo digital no Brasil
Enviada em 13/01/2021
Hannah Arendt, na obra “A Origem das Revoluções”, afirma que os processos revolucionários são transformações imparáveis que se impõem ao mundo e reinventam o futuro. Contemporaneamente, a internet e seus recursos, produtos da Terceira Revolução Industrial, modificam as relações humanas, como refletido pela filósofa política. Entretanto, o intenso analfabetismo digital no Brasil mostra-se um entrave para as mudanças propostas pela autora. Com efeito, esse grave quadro de segregação virtual deve ser enfrentado, uma vez que deslegitima direitos e impacta negativamente milhares de vidas.
Em um primeiro plano, o combate ao analfabetismo digital faz-se imprescindível, porquanto tal conjuntura afronta garantias fundamentais. Essa correlação pode ser explicitada pela negação do direito à informação, visto que os analfabetos digitais são impossibilitados de acessar a variedade de conhecimentos e notícias propagados no meio online, o que prejudica a formação de opinião e criticidade por tais indivíduos. Nesse sentido, a exclusão digital no país contraria Paulo Bonavides, em “Curso de Direito Constitucional”, na medida em que o cientista político aponta o acesso às informações como pressuposto indispensável para a efetivação da dignidade. Dessa forma, a desconstrução desse cenário torna-se crucial para a defesa da humanidade por trás de valores essenciais.
Ademais, o enfrentamento do analfabetismo digital necessita ser compreendido como demanda prioritária, já que sua manutenção produz efeitos negativos para inúmeras vidas. Isso ocorre devido à opressão sofrida por sujeitos que, isolados do restante da população com maior entendimento sobre o ciberespaço, deixam de aproveitar diversas oportunidades socioeconômicas advindas das tecnologias, como ofertas de emprego e de cursos em sites e redes sociais, o que os segrega socialmente. Nessa perspectiva, a persistência da marginalização dos analfabetos digitais transgride o pensamento de Jürgen Habermas, em “A Inclusão do Outro”, o qual destaca que incluir e amparar todos os cidadãos perfaz-se como prerrogativa para o convívio harmônico. Desse modo, possibilitar a alfabetização no meio virtual apresenta-se como medida crucial para o aumento da inclusão proposta pelo sociólogo.
O analfabetismo digital, portanto, consubstancia a violação de direitos e a perpetuação de mecanismos opressivos. À vista disso, o Poder Executivo Federal deve investir substancialmente em políticas públicas de alfabetização na esfera online. Essa medida deve ser concretizada por meio da disponibilização de cursos acessíveis nas periferias acerca do uso da internet, os quais garantam a contratação e o treinamento continuado de profissionais especializados na modalidade de ensino em questão, com a finalidade de estimular a efetiva inclusão tecnológica em toda a nação. Dessa maneira, o quadro transformador desvelado por Hannah Arendt será uma realidade empírica para o Brasil.