A questão do analfabetismo digital no Brasil

Enviada em 13/01/2021

Na obra “Ensaio sobre a Cegueira”, José Saramago relata uma epidemia que, ao se instaurar, intensifica vertiginosamente adversidades sociais. Atualmente, uma espécie similar de cegueira, deslocada ao ambiente virtual, faz com que muitos brasileiros se tornem irresponsáveis quanto ao uso das tecnologias da informação. Isso se materializa no analfabetismo digital, que deriva da insuficiência governamental e tem, como latente consequência, a alienação dos acometidos por tal revés. Assim, é imperioso analisar esse cenário deletério, a fim de combatê-lo por meio de políticas públicas.

Primeiramente, a inação do Estado para mitigar o despreparo tecnológico deve ser pontuada. Isso porque, ao não agir de modo a inserir grupos mais descontextualizados com as ferramentas em questão, como os idosos, o órgão contribui para que eles sejam apartados do uso consciente da tecnologia. A esse respeito, o iluminista Rousseau pondera que, na medida em que o Estado se exime de sua função de promover o bem comum, há a infração do contrato social. Com efeito, essa violação se evidencia atualmente no Brasil, uma vez que são raros os programas públicos de inclusão e contextualização digital e, quando acontecem, não abrangem populações mais pobres e distantes dos centros urbanos. Desse modo, tal ausência governamental prejudica a interação com os meios tecnológicos, inerente à inclusão social na atualidade.

Por conseguinte, desse cenário de cegueira em relação à preocupação com a educação digital deriva a imobilização social e intelectual dos segmentos afetados pelo problema. Sobre isso, o sociólogo Durkheim teoriza que as pessoas só poderão agir a partir do momento no qual aprenderem a conhecer os contextos dos quais fazem parte. Nessa visão, depreende-se que o desconhecimento dos mecanismos tecnoinformacionais catalisa um processo em que diversos grupos, justamente pela incompreensão da conjuntura e dos artifícios digitais, prescindem de se mobilizar - vide a Primavera Árabe, que consistiu na ação da sociedade no enfrentamento de ditaduras no Oriente Médio, iniciada por meio do “Facebook” - como exercício de sua cidadania.

Portanto é imprescindível que a alfabetização tecnológica seja incentivada no Brasil. Para isso, o Ministério da Educação - como responsável pelo desenvolvimento intelectual dos brasileiros - deve, por meio de leis a serem aprovadas no Congresso Nacional, destinar verbas para a criação de unidades especializadas no conhecimento digital. Tais unidades serão equitativamente distribuídas pela Federação e contarão com profissionais da educação e da tecnologia, com o objetivo des esclarecer a toda a população sobre os aparatos digitais e as competências necessárias para o seu uso. Feito isso, uma sociedade distante de comparações com a obra de Saramago ser alcançada.