A questão do analfabetismo digital no Brasil
Enviada em 27/02/2021
No começo do ano de 2021, o Brasil enfrentou o desafio de vacinar uma parcela suficiente de sua população a fim de conter a difusão do coronavírus, retomando assim sua estabilidade econômica e social diante do cenário de pandemia. Além da questão da quantidade limitada de vacinas, despontou um outro grande obstáculo a ser transposto: o espalhamento de Fake-News sobre as vacinas estava convencendo um grande número de pessoas a não se vacinar.
A situação previamente explicitada demonstra o quanto a questão do analfabetismo digital pode ser perigosa em um mundo cada vez mais conectado e dependente de recursos digitais para, entre outras coisas, obter informações cruciais na influência para a tomada de importantes decisões. Tem-se, portanto, que a questão do letramento digital, por assim dizer, ultrapassou os limites do simples acesso à ferramentas digitais e internet, bem como do conhecimento de como manipular tais recursos, tornando-se cada vez mais uma questão de saber utilizá-los conscientemente.
Dessa forma, se outrora não ter o acesso ao mundo digital era sinônimo de estar excluído do próprio mundo físico, visto que ambos se tornaram de certa forma indissociáveis, tal realidade, ao ser ampliada, ressalta a importância de que a sociedade seja instruída, desde os primeiros contatos com a internet, a ter responsabilidade digital. Pode-se então afirmar que, observada por esse viés, esta seria uma nova faceta da educação para o convívio social.
Nesse sentido, o estudioso Carl Sagan, em seu livro O Mundo Assombrado pelo Demônios, defendeu que quanto mais desejamos que algo se torne verdade, mais cuidadosos devemos ser. De maneira análoga, pode-se dizer que acreditamos no que queremos acreditar. Todavia, este é um caminho que não deve ser incentivado, por ameaçar, além do indivíduo, a coletividade que o cerca, despontando como mais uma razão para combater o analfabetismo digital, já que este torna as pessoas vulneráveis a acreditar em informações que reafirmam o que elas querem que seja verdade, sem se preocupar com a veracidade de tais informações.
Cabe, portanto, relembrar a tese do filósofo Zygmunt Bauman, de que não são as crises que mudam o mundo, e sim nossa reação a elas, como um alerta para que sejam realizados investimentos por parte do poder público no sentido de ofertar os recursos necessários de inclusão digital, e sobretudo da escola enquanto instituição, utilizando-se cada vez mais desses recursos para formar cidadãos conscientes, que saibam utilizar com sabedoria e responsabilidade os poderosos recursos de que dispõem, bem como nosso papel individual de educar-nos a nós mesmos para que em momentos de crise tenhamos o discernimento necessário para agir em prol do bem coletivo.