A questão do analfabetismo digital no Brasil

Enviada em 03/03/2021

“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles”. A frase da filósofa francesa Simone de Beauvoir descreve perfeitamente a naturalização da questão do analfabetismo digital no Brasil, uma vez que pior do que a ocorrência dessa vicissitude é se adaptar a ela. Tal problemática tem origem na negligência governamental, uma vez que é dever do Estado prover as necessidades de seu povo. Sendo assim, não só a desigualdade social, mas também a carência educacional atuam corroborando esse quadro no cenário nacional.

Dessa forma, torna-se claro como a discrepância economica entre os brasileiros atua dificultando a universalização do acesso à tecnologia no país. Isso acontece porque, apesar da popularização desses meios desde a terceira revolução industral, nem todos possuem condições financeiras para adquirir tais bens, conforme exposto em 2018 pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estátistica (IBGE), cujos dados de uma pesquisa reveleram que cerca de 46 milhões de pessoas em solo nacional sequer tinham acesso à internet. Consequentemente, além de analfabetos digitais por não ter tido o mínimo contato com um computador, esses indivíduos são marginalizados em um mundo cada vez mais globalizado.

Ademais, é inegável que a falha no sistema de educacional brasileiro impossibilita a alfabetização exigida nos moldes contemporâneos. Tal realidade tem origem no modelo propagado como ideal pelo governo que, mesmo tendo traçado metas para a inserção de uma educação tecnológica, ainda prima pelos tradicionais moldes conteudistas e tecnicistas, impedindo, assim, a fomação de indivíduos competentes tanto para a vida em sociedade, tanto para o mercado de trabalho. Esse pensamento, portanto, dialoga com o do filósofo inglês Francis Bacon, para quem “o conhecimento é em si mesmo um poder”, haja vista que um “cidadão digital”, torna-se mais poderoso do que os demais por ser detentor de requisitos necessários nos moldes hodiernos de convivência.

Diante do exposto, é notório que a questão do analfabetismo digital no Brasil é ocasionada pela negligencia do Estado. Sendo assim, cabe a sociedade civil organizada pressionar o governo federal para que crie o Plano Nacional de Acesso à Alfabetiação Digital, que atuará a partir do Ministério das Comunicações em parceria com a iniciativa privada, responsáveis por oferecer não só um ponto de internet onde o seu acesso é precário, mas também cursos de informática básica a fim de universalizar o acesso a essa tecnologia e inserir as pessoas no mercado de trabalho. Ademais, cabe o Ministério da Educação, por meio do Plano, ofertar verbas as secretarias estaduais e municipais para que realizem formações com educadores a fim de que, futuramente, possam inserir diversas tecnologias em suas aulas. Dessa forma, o escândalo da naturalização do analfabetismo digital não mais será naturalizado.