A questão do analfabetismo digital no Brasil
Enviada em 04/03/2021
O Darwinismo Digital
Por volta do ano 1450, no alvorecer para a Idade Moderna, Johannes Gutenberg inventou um modelo de prensa móvel capaz de gerar uma infinidade de cópias em um menor prazo de tempo que as transcrições feitas à mão. A invenção levou à divulgação em massa de escritos e informações, fenômeno estritamente relacionado ao aumento da compreensão humana sobre a realidade. Entretanto, nem todos tiveram a oportunidade de acessar as inovações no campo do conhecimento de forma precisa. Tal fato reflete-se na contemporaneidade, no que diz respeito à acessibilidade da tecnologia num mundo cada vez mais dependente dela. Sendo assim, analfabetismo digital revela-se um grande dilema na vida de muitas pessoas que são excluídas num meio cada vez mais competitivo.
Os meios tecnológicos evoluem constantemente à medida que a dinâmica no meio social torna-se uma prioridade absoluta. Os usuários bem instruidos e favorecidos socioeconomicamente sobressaem-se numa verdadeira seleção natural de Charles Darwin, na qual o ambiente seleciona as entidades que mais se adequam aos seus critérios de sobrevivência. As ideias do cientista britânico revelam o aspecto competitivo, exclusivo e materialista dos dias atuais, onde a adaptação é uma imposição tóxica bem como perpetuadora de um analfabetismo digital cada vez mais crescente no Brasil, país nunca dado para a igualdade.
Outrossim, a ingenuidade na utilização do meio tecnológico associada à precariedade do senso crítico frente ao uso da tecnologia induz a graves consequências, como a perpetuação das Fake News, do negacionismo científico e de extremismo político. Isto é, além da seleção, o meio digital pode atuar como manipulador de indivíduos nos quais se deixam levar pelo que está escrito na tela do smartphone ou qualquer outro veículo. O analfabetismo digital, portanto, adquire outra faceta: a de uma carência de criticidade que se perpetua para o coletivo. A declaração do cantor Zé Ramalho em sua música “Admirável Gado Novo”(1979) revela-se extremamente atual: “O povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela. E sonham com melhores tempos idos, contemplam essa vida numa cela”.
A questão do analfabetismo digital há ser combatida por meio de múltiplos agentes agindo pelo bem comum do progresso associado à inclusão. Cabe ao poder público levar a importância e as instruções de uso das tecnologias por meio da educação, bem como pelos meios de comunicação. É de suma importância, também, que o setor privado estabeleça normas de uso correto no âmbito digital e regulamente a atividade de seus usuários. O debate quanto à acessbilidade da tecnologia torna-se, da mesma forma, um dever imprescindível dos próprios usufruidores, eliminando as barreiras exclusivas.