A questão do analfabetismo digital no Brasil

Enviada em 05/03/2021

Uma postura destituída de empatia perante o sofrimento alheio. Essa é a imagem presente no quadro “O grito”, do pintor Edvard Munch, pois, nessa arte expressionista, veem-se, ao fundo da tela, personagens que se mostram indiferentes à angústia evidenciada pela figura humana do plano central. Entretanto, essa cena não se limita ao âmbito artístico, já que, na realidade, as vítimas do analfabetismo digital no Brasil vivem algo semelhante, tendo em vista que elas têm sido “esquecidas” por setores governamentais e sociais. Sob essa ótica, cabe analisar os aspectos que envolvem essa questão no país.

Primeiramente, pontua-se que o Poder Público revela-se negligente ao não combater o analfabetismo digital. Isso porque há, por parte dos órgãos executivos, uma ineficiência quanto ao processo de conscientização, uma vez que falta incentivar, desde a infância, a criticidade para a investigação rigorosa acerca da veracidade dos fatos publicados na internet, o que prejudica a consolidação plena do direito à informação. Sendo assim, nota-se que o governo não tem garantido o  bem-estar de todo o coletivo, evidenciando, dessa forma, a ausência dos princípios fundamentais alicerçados nos ideais iluministas do século XVIII em prol da democracia.

Também, observa-se que o silenciamento social frente ao analfabetismo digital apresenta-se como fator agravador desse quadro negativo. Contudo, parte da população tem demonstrado certa inércia diante desse cenário, por acreditar que são majoritários os segmentos políticos contrários ao investimento financeiro para habilitar toda a população para o uso das ferramentas digitais para além do uso das redes sociais, comprometendo, então, uma cidadania pautada na educação digital. Recorrendo aos estudos da cientista política Elisabeth Noelle-Neumann para explicar esse fenômeno, constata-se que, para evitarem conflitos com grupos dominantes, alguns indivíduos tendem a fortalecer uma “espiral do silêncio”, permitindo, assim, a manutenção de entraves.

Ressalta-se, portanto, que o analfabestismo digital deve ser superado. Logo, é necessário exigir do Estado, via debates em audiências públicas, a conscientização coletiva, priorizando projetos educativos ministrados por especialistas em tecnologia da informação, com o objetivo de incitar a busca de fontes seguras de conteúdos na web. Ademais, é essencial estimular a população, por intermédio de campanhas midiáticas produzidas por organizações não govenamentais, sobre a importância de haver o engajamento coletivo para a ruptura de ideologias dominantes que permitem a não alfabetização digital, potencializando, assim, verbas para fundamentar o uso da internet para fins, por exemplo, acadêmicos. Desse modo, a indiferença ao sofrimento alheio poderia ficar restrita à obra de Munch.