A questão do analfabetismo digital no Brasil

Enviada em 08/09/2021

Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor, José Saramago, expõe ao leitor o fenômeno da “Cegueira moral”, denunciando a alienação da sociedade frente às diversas realidades sociais, a qual é fomentada pela restrição do acesso à informação. Fora da ficção, esse fenômeno é facilmente evidenciado no hodierno cenário brasileiro, sobretudo, na questão do analfabetismo digital no Brasil. Esse panorama nefasto, ocorre não somente em razão da não aplicação dos direitos constitucionais, como também devido à forma educacional predominante no país, tornando necessária a análise desta conjuntura, com o intuito de mitigar os entraves à consolidação dos direitos civis.

Primordialmente, é imperativo pontuar que o acesso à informação é tida como um direito pelo artigo 6º da “Constituição Cidadã”, mas, deturpado, visto que, o analfabetismo digital se vê presente na sociedade nacional. Isso é nocivo, pois, conforme afirma o geógrafo, Milton Santos, em sua obra “Cidadanias mutiladas”, a democracia só é efetiva quando atinge a totalidade do corpo social, ou seja, na medida em que seus direitos são universais e desfrutados por todos. Deste modo, infere-se que o não combate ao analfabetismo digital coloca em risco os direitos de todos cidadãos, apesar de afetar a principio, mais profundamente, os excluidos do universo tecnológico.

Outrossim, é igualmente preciso apontar a educação, nos moldes predominantes no Brasil, como outro fator que contribui para a manutenção do analfabetismo digital. Para entender tal apontamento, é justo relembrar a obra “Pedagogia da Autonomia”, do patrono da educação brasileira, Paulo Freire, na medida em que ela destaca a importância das escolas em fomentar não só o conhecimento técnico-científico, mas também habilidades socioemocionais, como respeito e empatia. Sob essa ótica, pode-se afirmar que a maioria das instituições de ensino brasileiras, uma vez que são conteudistas, não contribuem na percepção empática com os indivíduos que não estão inseridos no meio digital, não contribuindo no combate ao analfabetismo digital e, portanto, não formam indivíduos da forma como Freire idealizou.

Frente a tal problemática, faz-se urgente, pois, que o Ministério Público atue na resolução do impasse. Para tanto, cabe ao Ministério da Educação -ramo do Estado responsável pela formação civil- inserir, na grade curricular comum, desde tenra idade, a disciplina de “Cidadania”, para que a sociedade tenha a oportunidade de debater, com respeito e empatia, a universalização dos meios tecnológicos, a fim de combater ao analfabetismo digital e garantir a plena democracia. Ademais, compete ao Legislativo a aprovação desta mudança. Quiçá, assim, tornar-se-á possível a construção de uma sociedade permeada pela efetivação dos valores elencados na Carta Magna.