A questão do analfabetismo digital no Brasil
Enviada em 09/08/2022
No filme “Eu, Daniel Blake”, o personagem principal, após ter um problema de saúde, precisa recorrer ao governo para receber benefícios por invalidez. Mas ele esbarra em burocracias que são amplificadas pelo fato de ele ser um analfabeto digital. Para além da ficção, brasileiros na mesma situação se deparam com as dificuldades impostas por uma sociedade cada vez mais conectada. Questões essas que vão desde a exclusão digital até a utilização adequada do meio.
Diante disso, em primeira análise, é importante entender que o conceito de analfabetismo digital abarca a incapacidade de ler, compreender e dominar os signos, gestos e comportamentos da atmosfera tecnológica. No Brasil, tal questão tem relação direta com a “exclusão digital”, que é uma forma moderna de violência e manutenção sutil das desigualdades sociais. Nesse sentido, de acordo com o filósofo francês Michel Foucault, o termo “tecnologia” agrega a ideia prática de estratégia e tática e, dessa forma, ela pode ser um meio de possibilitar a educação continuada para a sociedade. Daí a urgência em promover soluções para dar acesso pleno à internet por parte dos brasileiros.
Em segunda análise, aliada à exclusão digital está a questão da inadequação no uso das tecnologias. Isto é, em um país no qual o analfabetismo funcional é uma realidade e apenas 12% dos brasileiros, segundo o IBGE, são considerados proficientes na língua portuguesa, os meios eletrônicos tornam-se um obstáculo ainda maior. Ou seja, para além do acesso irrestrito à atmosfera digital, é necessária a responsabilidade e a adequação no uso da internet, no sentido de ler criticamente as informações recebidas. Afinal, sendo ela a espinha dorsal da modernidade, é preciso proporcionar não só acesso, mas educação tecnológica.
Assim, para que reduzam as questões relacionadas ao analfabetismo digital no país, é necessária a promoção, pelo Estado, de um plano de inclusão, por meio de comunidades digitais que aliem a educação básica à tecnológica, desde a infância, ensinando a dominar os instrumentos eletrônicos, de forma a possibilitar cidadania plena. Além disso, é preciso incitar o pensamento crítico desde cedo, pelas escolas, por meio de leituras e debates antagônicos, para que a população saiba discernir informações, sob a lógica foucaultiana de estratégia educacional.