A questão indígena no Brasil contemporâneo
Enviada em 27/02/2020
Sabe-se que, historicamente, os livros são uma das formas principais de disseminação cultural no mundo. Nesse sentido, no universo distópico inglês de “Farenheit 451”, observa-se o fenômeno da queima de livros, no qual os, controversialmente chamados, bombeiros colocam em chamas todas as bibliotecas da cidade, queimando história, ciência e, principalmente, cultura. Fora da ficção, na sociedade brasileira contemporânea, nota-se, importunamente, um quadro de incineração cultural dos povos indígenas, o qual compete à esfera educacional e aos antolhos culturais dos indivíduos, urgindo atenção imperiosa.
Cabe ressaltar, em primeiro lugar, que a educação brasileira é falha no que concerne ao ensino cultural amplo, pois verifica-se o fenômeno da europeização em detrimento do enaltecimento da cultura local. Ou seja, assim como na curta-metragem, “Felicidade”, por Steven Cutts, na qual a alegoria dos ratos corresponde à atual sociedade, são moldados seres sistematizados, acostumados apenas às tradições européias, as quais, para o filósofo Jean Jacques Rosseau, pressupondo que o homem é aquilo que a sociedade faz dele, seriam consideradas superiores. Nesse contexto, em suma, as culturas que divergem dos padrões europeus ensinados, como as indígenas, são, infelizmente, segregadas e ofuscadas, o que urge mudanças nos métodos de ensino do país.
Por conseguinte, enquanto o supracitado se mantiver, o panorama educacional brasileiro promoverá antolhos culturais nas pessoas. Assim como teoriza Wolf Lapenies, sociólogo alemão contemporâneo, os antolhos culturais incitam a avareza cognitiva, a qual, de acordo com ele, torna inconcebível o raciocínio crítico acerca do diferente e, concomitantemente, intensifica o apagamento cultural indígena no Brasil, na medida em que a cultura tende à homogeneização devido a posição de bolha social, tristemente, promovida. Logo, é evidente a urgência da dissolução da conjuntura que ratifica a queima cultural dos povos indígenas no país.
Infere-se, portanto, perante a tempestividade da problemática, a necessidade de mudanças. Destarte, o MEC deve, por meio de alterações na Base Nacional Curricular Comum (BNCC), inserir, na educação básica brasileira, as culturas indígenas e torná-las patrimônio intangível do país, para que a sociedade se liberte das bolhas e dos antolhos culturais, construindo uma população verdadeiramente heterogênea. Visando ao mesmo objetivo, o MEC pode, ainda, criar campanhas “on-line” que enalteçam a cultura e os povos indígenas, de forma a corroborar a um país livre dos bombeiros presentes em “Farenheit 451”.