A questão indígena no Brasil contemporâneo
Enviada em 04/04/2020
No romance Nove Noites, obra de caráter fidedigno às imposições sociais da década de 30, Bernardo Carvalho descreve a situação das relações indígenas no tocante aos estudos antropológicos deferidos por estrangeiros nas tribos. No Brasil Pós Moderno, no entanto, tal processo civilizatório encontra-se, de fato, atrelado à mistificação da cultura indígena e ao antagonismo social protagonizado pelas disputas territoriais. Diante disso, faz-se necessário o debate acerca desse impasse na contemporaneidade.
A priori, vale ressaltar uma análise intrinsecamente histórica no que tange ao período colonial brasileiro e às exequíveis replicações na modernidade. Nesse espectro, nota-se a disseminação das bandeiras, processo de interiorização sertanista em busca de minerais, viabilizadas pela destruição de quilombos e pela escravização indígena. Tais atos, portanto, retratam a violência iminente às relações entre o homem branco e os nativos em um paradigma essencialmente segregativo. Analogamente, na contemporaneidade, o diálogo entre as supracitadas culturas está atrelado ao caráter antagônico, tal qual as facínoras disputas territoriais por segmentos de terra empossados por tribos ao considerá-los historicamente pertinentes, em contraposição, há uma justificativa sertaneja em tomá-los por não existirem comprovações legais que os determinem.
A posteriori, ao tomar como norte o advento do catolicismo na obsoleta Terra de Santa Cruz, nota-se uma discrepância ideológica, embora intimista, nas relações sociais. Sob esse viés, compreende-se o papel dos jesuítas na disseminação do cristianismo aos nativos indígenas, em virtudes da missão católica de multipolarização da fé. Por um lado, tais medidas corroboram a proteção dos indígenas defronte a tentativa dos bandeiras em escravizá-los. Por outro lado, a disseminação da fé fomentou uma imposição cultural que desconsiderou as peculiaridades dos nativos, enriquecida pela diversidade etnológica, linguística e estrutural. Nesse sentido, a mistificação das heterogêneas culturas indígenas está intrinsecamente relacionada aos aspectos coloniais e, consequentemente, fomenta a desvalorização dessa cultura no Brasil contemporâneo.
Portanto, torna-se imprescindível a proposição de intervenções que mitiguem o impasse indígena na contemporaneidade. Desse modo, cabe ao Ministério da Educação, em parceria à Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, desenvolver ampliações a Base Nacional Comum Curricular que fomentem a valorização da cultura indígena e a sua relevância mor no processo de formação da identidade nacional. Somente assim, atenuar-se-á uma cenário ideal aos indígenas em respeito aos seus princípios ideológicos e territoriais, evidenciados no romance de Bernardo Carvalho.