A relação do brasileiro com sua nacionalidade: os efeitos do complexo de vira-latas.
Enviada em 22/10/2019
Segundo o criador do anime One Piece, o protagonista Luffy possui nacionalidade brasileira devido ao seu carisma e à sua receptividade. Nesse contexto, muitas vezes a perspectiva estrangeira sobre o Brasil parece ser mais positiva do que a do próprio brasileiro. Dessa forma, o desejo coletivo de o país se adequar aos padrões de países ricos e o desconhecimento sobre a sua construção histórica contribuem para o complexo vira-lata brasileiro.
A priori, essa denominação, criada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, refere-se ao sentimento de inferioridade nacional quanto ao resto do mundo. Com efeito, esse fato é observado em diferentes momentos da história brasileira. No século XIX, a literatura romântica apresentou o país por uma perspectiva europeia, a qual desconsiderou elementos da cultura brasileira e enalteceu valores da alta burguesia europeia. Além disso, a política de “embranquecimento” da população ao longo da história tentou de forma falha transformar a etnia parda do país em branca com políticas de imigração. Dessa maneira, é perceptível a tentativa de aproximar o Brasil dos países de primeiro mundo.
Sob esse viés, o preconceito sobre a respectiva cultura e valores nacionais é reflexo do abismo social dessa nação. Para justificar tal premissa, o filósofo Guy Rocher afirma que a cultura é como um grupo social se identifica. Nesse sentido, em um país com forte desigualdade social como o Brasil, diferentes classes sociais possuem sua maneira particular de manifestar-se. Nessa lógica, o funk carioca, nascido na periferia do Rio de Janeiro na década de 70, é vítima até hoje da intolerância e depreciação pela alta cultura brasileira. Em 2017, nessa perspectiva, por meio de uma proposta política enviada ao Senado, foi presumido torna-lo “crime contra a saúde pública”. Assim, percebe-se a intolerância da população sobre as próprias manifestações culturais do país.
Portanto, a valorização ao estrangeiro em detrimento do nacional e a ignorância sobre a história do país contribuem para a baixa autoestima do brasileiro. Para reverter isso, é necessário que o Ministério da Educação, em parceria com os estados, incentivem políticas de valorização da cultura nacional. Para isso, é necessário que o Ministério crie uma cartilha que enfoque a realidade de minorias sociais, como o pobre, o negro e o índio, por exemplo, para a criação do Brasil atual. Ademais, os estados devem oferecer estrutura e profissionais preparados para debater sobre a importância de conhecer as manifestações sociais de diferentes grupos. Somente assim é possível aproximar a perspectiva do brasileiro a do criador de One Piece.